Abrigo Fundo, by Ricardo Caldeira


A inundação foi inevitável e alagou todo o meu território.

Estava como sempre. Apetecível. Inclinado naquele tronco imenso, de músculos vincados, onde arrasto o olhar. Estou presa nele desde o início da obra no elevador. Corre há dois dias, os mesmos que ando doente para ir ao trabalho. Só espero que esta doença se prolongue. Acordo ansiosa a escolher o que vestir. Rodo entre os calções curtos que me apresentam logo em curvas e o vestido justo que atira certeiro os olhares abaixo dos meus ombros. Fico indecisa, cabelo solto de mistério ou apanhado a apresentar pescoço e costas num moreno invejável, feito a provocar na marca do biquíni. Quem pensou nos óculos das portas, não teve uma obra destas assim à queima. Coisa ridícula este pedaço de janela onde tenho de pastar os olhos por partes.  Para o ver completo, com os braços a emoldurar o tronco, tenho de inventar mil e uma entradas de casa. Já não tenho espaço no frigorífico, mas já estou atrasada para ir às compras. Uma coisa rápida que me permita demorar pelo hall da escada. 

Quando abri a porta encontrei-o deitado de costas à luta com uma calha da caixa do elevador. A mão esquerda, empurra o corpo contra a parede, num equilíbrio de força com a mão direita que abraça forte a chave de parafusos. As pernas arqueadas encostam-lhe as calças justas às coxas, enormes. Fiquei a controlá-lo de lado encostada à minha porta a inclinar os calções. Na minha cabeça vejo um homem a despir-se nas escadas, e estou decidida a tropeçar nele. Ensaiei tudo numa fração de segundo e quando me apercebi tinha as costas pousadas no braço direito que me amparou da queda iminente. Um teatro falso, medíocre que me colocou o rosto encostado ao pescoço dele. 

Nunca tínhamos estado assim, pele na pele. Fingi aflição, um misto de falta de ar com ansiedade pela queda quase fatal às portas da escada. Apoiei as mãos no pescoço dele abraçando menos de metade enquanto ele me deitava no chão inclinado sobre mim. Olhou-me calmo de sorriso sereno e atirou as mãos na minha direção. 

Imaginei tudo, a blusa a ceder na força dele e eu a ceder com ela desejosa daquele agarrar bruto, forte que sufoca e prende a respiração. Mas a blusa só cedeu o primeiro botão, tão longe do desvio que evidencia os montes onde imaginei acolher o seu repouso. Ajeitou-me um casaco debaixo da cabeça que me arrepiou do pescoço às pernas e disse-me para respirar com calma, pausadamente como se estivesses a descansar. Disparei na loucura do toque dele. Aquele tronco tinha voz terna e segura que fez galgar ainda mais a pequena margem onde ancorava já por dois dias o meu desejo. A inundação foi inevitável e alagou todo o meu território. Não consegui articular uma resposta. Tentei balbuciar qualquer coisa que ele silenciou com um toque suave nos meus lábios. 

Disparei em ritmo, num risco cardíaco de lhe agarrar o pulso para o manter junto a mim. Podia sentir-lhe o cheiro, estupidamente quente, que queria misturar com o meu, no aperto de um amasso. Mas estava incapaz de mexer um músculo. Senti uma flutuação de tremor. Estava dominada pelo desejo. Quando a pele me denunciou eriçando os pelos do braço, senti levantar-me do chão. Só tive espaço para me agarrar nele com o braço pelas costas, aninhando naquele pedaço o meu peito. 

Ele empurrou a porta entreaberta de minha casa e pousou-me no sofá. Nesta altura eu já estava offline, incapaz de qualquer ligação com a realidade. Só o vi dançar a caminho da cozinha, provocando-me. Quando se chegou a mim, sentado na berma do sofá, invadiu-me as costelas com a parte de fora da coxa e pousou um pano frio na minha testa. Lançou novamente as mãos à minha blusa e desta vez avançou mais dois botões, que deixaram a descoberto o encaixe do meu peito, nervoso, ansioso pelo toque que se anunciava. Fechei os olhos, decidida a gozar em pleno aquele toque. Foi um tempo imenso de silêncio que explodiu no bater da porta. Levantei-me irreconhecível, com tremores na frustração do toque e mirei-o na janela pequenina da porta à procura de o perceber. Estava de volta ao elevador e à calha.

No dia seguinte não saí de casa, nem me aproximei do óculo da janela. Sabia que estava lá pelo barulho das ferramentas.

Foi na sexta-feira, três dias depois da minha queda que me aproximei do óculo. Estranhei as costas e o desenho do pescoço. Quando saí para fazer compras, ele não estava. Teria ido almoçar? Era quase uma da tarde. O meu timing estava péssimo.

Voltei a entrar e avancei com um gin para me acalmar. Adormeci inquieta. Mas adormeci. Acordei no sobressalto da campainha. Pensei nele. Corri a mudar de roupa e quando cheguei à porta voltei a ver no óculo umas costas estranhas. Abri e as costas rodaram apresentando-me um novo olhar, aberto, dirigido a mim. Não era ele.

Ricardo Caldeira


Sem comentários

Com tecnologia do Blogger.