A Sério? Isto foi nos anos 90? by Ricardo Dinis


Até agora ainda não abordei algo incontornável que habitualmente variava ao longo das décadas e atualmente varia quase à velocidade da luz: as modas! 

Apesar de ter surgido no fim da década de 80, com o subtítulo de Seattle Sound, devido a ter sido nessa cidade do estado norte americano de Washington, que surgiu esta sub cultura do rock, os anos 90 são por excelência a década da explosão do grunge.

Este movimento, caracterizado por músicos de aparência desleixada, camisas de flanela envelhecidas às riscas, cabelo comprido e all stars quanto mais velhas e amarrotadas melhor, era o auge da moda naquela época. O rock alternativo, com temas baseados na alienação social e desejos de liberdade, derivado do punk hardcore e do heavy metal, que se iniciou em torno da editora independente Sub Pop, em Seattle, atingiu o seu expoente com o lançamento dos álbuns: Ten, dos Pearl Jam, Nevermind, dos Nirvana e Dirt, dos Alice in Chains.

O ícone máximo deste movimento foi sem dúvida Kurt Cobain, o mítico vocalista dos Nirvana. 

Confesso que sou um admirador deste movimento, do estilo visual e das bandas que o caracterizam. No último sábado, fui a um festival de música rock, no irreverente e alternativo Maus Hábitos, na cidade do Porto. Como indumentária, que ainda hoje aprecio, levava as minhas clássicas all star, a minha camisola de flanela preferida, casaco velho e, claro, barba comprida. Logo aí ouvi alguns comentários de amigos como: “és um homeless?” ou “queres uma moedinha?”

Desse local segui para outro espaço noturno em que o porteiro olhou para mim de soslaio, com ar desconfiado e referiu que o consumo era um valor, que já nem me lembro, mas obviamente muito acima do normal. Estratégia clássica, para afastar os “indesejados” desses fancy locais noturnos. Tive de me render às evidências e aceitar que o grunge está completamente démodé. Aquilo que na década de 90, era estilo, a chamada “pinta”, que deixava as miúdas em estados a roçar a histeria, hoje em dia é considerado um visual de um sem abrigo, um desleixado, um desajustado social, que provavelmente vive num T0 na periferia das cidades, às custas do rendimento mínimo. Senti na pele algum preconceito e até discriminação por adotar um estilo que tanto continua a influenciar as bandas atuais e que se imortalizou como movimento icónico dos anos 90!

Outra moda daquela que como já perceberam é a minha década favorita, eram as Boys e Girls Bands. Apesar da qualidade musical não entrar nas minhas preferências, eram sem dúvida produtos pop massivos. Já dei por mim nos dias de hoje a trautear refrões dos Backstreet Boys, dos Take That ou das Spice Girls. Algumas destas bandas, hoje extintas, bem como todo este movimento pop associado a elas, acabaram por produzir músicos com carreiras de sucesso à escala planetária, como os sobejamente conhecidos Robbie Williams, ex Take That e Justin Timberlake, ex N Sync.

Além de refrões viciantes e ritmos dançáveis, estas bandas ditavam muito do que era a moda da época, influenciando teenagers um pouco por todo mundo. A componente visual era um dos pilares fundamentais destas bandas. O estereótipo do “menino bonito”, mas rebelde estava bem patente na forma como os elementos se vestiam, como dançavam e nas próprias letras das músicas. Arrisco-me a dizer que mesmo os fãs mais devotos, associavam sempre os grandes hits, a um videoclip ou a uma coreografia, que tinha tanta ou mais importância que a música em si. Neste capítulo, a televisão, nomeadamente a MTV, desempenhavam um papel fundamental. Era um canal com audiências de milhões de espectadores, numa altura em que os canais de música, primeiro através de satélite e depois da TV por cabo, estavam “on fire”.

Todos, sem exceção, viam MTV. Os fãs aguardavam ansiosamente pelo próximo videoclip da sua banda preferida ou pelos famosos unplugged, onde podíamos ver as músicas tocadas ao vivo, revisitadas num formato acústico, sem instrumentos amplificados, como piano ou guitarra acústica. Grandes ícones da música mundial, como Elton Jonh, Paul MacCartney, Bob Dylan, Bruce Springsteen, Duran Duran, The Cure, Neil Young, EaglesOasis ou Bjork, gravaram álbuns neste formato, uma das referências da época, largamente popularizada por este canal americano de televisão.

Era indiscutível a influência que a MTV tinha na difusão das modas entre o público jovem adulto, mas acima de tudo era um canal de música, que tinha como propósito mostrar videoclips, promovidos por personalidades famosas, que ocupavam cerca de 80% da grelha do canal, garantindo sempre que ouviríamos música quase 24 horas por dia. Hoje em dia, este canal nada tem a ver com aquele que nasceu em 1981, sendo a programação preenchida por reality shows, comédia e drama de qualidade muito duvidosa, que claramente se enquadra naquilo a que apelido de “Junk TV”. 

Se hoje quiser ouvir música ou ver um videoclip na televisão, encontro muitas dificuldades, sendo o mais certo, deparar-me com “casas dos segredos” americanas. Acho que este canal deveria ponderar alterar a palavra Music, da sua sigla, pois de música (principalmente boa), resta muito pouco… 

É verdade, as coisas eram assim nos anos 90 e não foi há assim tanto tempo!

Ricardo Dinis

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