Descobrir "O Poder dos Adolescentes" de Rui Melo


Há um mês atrás, por incompatibilidade de agenda (sim, pois estas miúdas andam sempre numa roda-viva) e com muita pena nossa, faltámos ao lançamento do livro "O Poder dos Adolescentes", de Rui Melo, que decorreu no Palácio Anjos no Centro de Arte Manuel de Brito, em Algés. Ainda assim, e como nós adoramos conhecer pessoas com talentos e que não desistem de conquistar os seus sonhos, quisemos conhecer melhor o autor e este seu desejo de escrever sobre e para os adolescentes. Preparem-se para conhecer de perto o "Poder" de Rui Melo.

Fale-nos um pouco do Rui Melo, o escritor. Como surgiu esta vontade de escrever um livro?
Desde sempre. Escrevo desde os meus 11 anos e apesar de ter sido sempre à volta da poesia e da prosa, nunca tive a coragem de publicar. Quer dizer, aqui e ali uns artigos para revistas, mas nunca achei que o que escrevia tinha qualidade ou conteúdo que interessasse a alguém. Agora acho que estive sempre errado. A PARTILHA é a essência da escrita e não outra coisa qualquer. Partilha-se e ponto. No entanto, concordo com a necessária responsabilidade em garantir que o que se escreve tem qualidade. Este é, talvez, o limite mínimo dessa atitude de partilha. O grande impulso foi claramente altruísta. Um livro que pudesse habitar nas suas mochilas, dias a fio, todo coçado de tanto uso, é uma ideia que ainda hoje me alimenta. O Livro acabou por ver a luz do dia pela qualidade e interesse que despertou nos vários testers a quem dei a ler alguns capítulos.


Rui Melo, o escritor

O que o motivou a "entrar" no universo dos adolescentes? É o seu público-alvo, ou este livro também pode/deve ser lido por pais e educadores?
Sempre convivi bem com os mais velhos e com os mais novos, ou seja, com gerações acima e abaixo da minha. Sempre tive um interesse genuíno em sentir as diferentes vivências a acontecerem no mesmo Tempo. Claro que com três filhas o apetite para escrever para Eles começou a tornar-se enorme. Existe um filme, que vi há muitos anos, chamado "My Life". Conta a história de um pai que vive o drama de ter os dias contados e a mulher grávida de um rapaz, seu filho. O que me fascinou nesta história foi a Escolha que o pai fez em usar os últimos meses da sua vida, documentando a sua personalidade, as suas opções de vida, aquilo em que acreditava. De certa forma, uma passagem de legado post mortem. Verti lágrimas quando o pai faz um vídeo para o filho, sobre a forma correta de fazer a barba. Custasse o que custasse, este pai queria estar presente no crescimento do filho. Talvez eu também tenha um pouco disso na motivação do livro.

Sempre defendi que "educar é conduzir sem ser visto"… e no momento em que Eles notam que queremos que vão para a esquerda, desviam para a direita. O problema não está nesta "determinação". É até saudável! O problema é que acabam por magoar-se. Os pais, mesmo com alguma falta de jeito, querem o melhor para os seus filhos. E, mesmo nessa falta de jeito, acertam a maior parte das vezes. Ora, com esta aversão a serem "conduzidos" vão acabar por decidir asneira atrás de asneira.

Apesar deste possível mergulho dos adultos no Livro, continuo a considerar que o público-alvo do livro são mesmo os adolescentes. Mais importante do que os adultos saberem como conduzir, é mostrar aos adolescentes que podem pensar por eles. Treinarem para ser melhores seres humanos antes da idade/vida/experiências chegarem, normalmente ao fim de muito tempo. Os adultos normalmente têm esta expressão "se eu, com a vossa idade, soubesse o que sei hoje…". Não digo que tento evitar as experiências da vida, antes pelo contrário. Com este livro tento, isso sim, dar-lhes ferramentas que Lhes permitam tirar maior partido dessas experiências.

Claro que os leitores adultos conseguem aproveitar muito do livro. Não no sentido de ficarem a educar melhor, mas no sentido de entenderem a química de uma geração que não deixa de ser difícil e de provocar "muitos estragos" em quem os rodeia.


António, o ilustrador

Na página de Facebook do livro, podemos ler "Os Adolescentes são a Geração Nómada". Quer falar-nos um pouco sobre esta ideia?
(risos) Essa foi uma ideia que surgiu das muitas conversas que tive com o António, o ilustrador. Ele tem 22 anos e, pelo caminho, apesar do livro já estar, à altura, pronto, foi-me mostrando algumas formas diferentes de ver o meu próprio livro. Foi no meio dessas trocas de ideias que surgiu o "rótulo" Geração Nómada. Todos passamos pela idade da adolescência. As gerações, hoje em dia, dizem, contam-se de 7 em 7 anos. São gerações com muito em comum que vão avançando no tempo. Como se se tratasse do jogo da cadeira, mas, neste caso, ninguém volta à cadeira onde se sentou. A geração que agora está sentada na cadeira da adolescência é muito forte. Muito bem apetrechada. Com uma visão muito mais global, desempoeirada. Muito mais completa do que quando eu me sentei na mesma cadeira. Claro que nem tudo são rosas… os desafios para Eles são enormes. Mais do que foram para a minha geração. A exigência dos pais e da sociedade sobe a cada geração que passa.

Mas porquê nómada…
Nómada por várias razões: Porque agora começam cedo a viajar e a ter sede de viajar; por serem desinibidos ao olhar para este mundo global; por admitirem trabalhar e constituir família em qualquer parte do mundo; mas, acima de tudo, por conseguirem estar a pensar em vários cenários ao mesmo tempo, numa inquietação permanente, que ajudados pela tecnologia fá-los "viajar" constantemente sem terem de sair do lugar.

Depois de "O Poder dos Adolescentes", o Rui sente "Poder" para continuar a escrever?
Penso que sim. Sempre atirei o coração para a frente e corri atrás dele. Por isso é que o Poder do Desejo é o meu poder... é o poder com o qual mais me identifico, apesar de ainda estar a afinar o uso dos outros poderes (risos)... É um exercício bastante engraçado e fácil de se fazer. Eu, como pai, identifiquei claramente os poderes mais vincados em cada uma das minhas três filhas. Convido todos os leitores a escolherem o vosso… Já tenho alguns temas na calha. Sempre apontei as ideias que vou tendo quando bato com a cabeça (risos)… e por isso, para mim, até é fácil avançar para outro livro. O tempo terá de estar do meu lado. Sem tempo - não há dedicação – não há produção – não há qualidade. Este livro levou-me 5 anos a escrever, porque as interrupções por falta de tempo foram sempre muitas. Afinal de contas, não sou um escritor profissional.


"O Poder dos Adolescentes", o livro

As suas preferências enquanto leitor influenciaram de alguma forma a sua escrita? (autores de referência, temáticas...)
Não, não é bem por aí! Existem, com certeza, vários géneros de escritores que aprecio, mas os que mais me impressionam, escrevem livros que são arrancados de dentro das suas vidas. São os que não escrevem a metro. Claro que tudo o que li e vivi com esses livros influenciou-me, mas mais importante foi fazer o que eu chamo o "caminho de humildade"… Eu explico… quando acabamos de aterrar num mundo que não é o nosso, ou seja, escrever e tornar o que escrevemos público, temos de aceitar a possibilidade de não estarmos a "ver bem a coisa". Com o livro a finalizar, comecei por tentar descobrir alguma escrita sobre adolescentes e confrontar o meu livro com a concorrência, mas o que encontrei não desenvolvia esta abordagem. Depois, provoquei o encontro com a Mónica Menezes, que já escreveu um livro para Eles e falámos várias vezes sobre o desafio de escrever em Portugal e ainda por cima para adolescentes. Foram muito interessante as nossas tertúlias.

A verdade é que sempre li muito, mas as minhas influências sempre estiveram do lado da vida, vivida. Lembro-me de quando trabalhava em Lisboa e ia de transportes, o meu maior passatempo era observar as pessoas. Dar-lhes vidas inventadas, com sentimentos mais ou menos aderentes. Por outro lado, e esta é quase óbvia para quem me conhece bem, um altruísmo em ser útil para quem precisa. Não que os adolescentes sejam a parte fraca desta história, antes pelo contrário, porque são muito importantes para o futuro das nações. O que Eles sentem num par de horas, não sentem os adultos numa semana. Neles existe uma contradição de base de que eu gosto muito… vivem freneticamente os dias, como se não houvesse amanhã, tomando ao mesmo tempo os riscos de quem é imortal. Ora isto é uma delícia, mas ao mesmo tempo perigoso. Talvez a razão para se sentirem tantas vezes perdidos e, assim, tantas vezes fracos. A verdade é que, entre filhos únicos ou pais divorciados ou até mesmo pais sem jeito nenhum para educar, os cenários sempre existiram na minha cabeça, suficientemente fortes, para que eu quisesse ajudar de alguma forma através de um livro.


O lançamento

Deparou-se com grandes dificuldades/obstáculos para publicar o livro?
Sim, bastantes. Penso que as Editoras já não funcionam como nós ainda as imaginamos. Num livro em que as ilustrações têm o seu espaço, a sua força, enviar um pdf de texto corrido não despertou grande interesse. Decidi mudar de estratégia: Porque não montar o livro todo, numa edição de autor, e depois, já com um produto final palpável, fazer-me à estrada e ver o que acontece. Estou agora nesta fase… já tenho uma editora interessada e espero conseguir o interesse de outras. Quero decidir pela que possa garantir que o livro chegue ao maior número de adolescentes possível.

Pelo que pudemos perceber pelas mensagens que vão sendo deixadas na página de Facebook do livro, quem já leu "O Poder dos Adolescentes" gostou bastante. Uma palavra para quem ainda não leu...
Talvez o mais acertado seja dizer que se trata de uma viagem ao centro de nós. Somos seres complexos, completos e maravilhosos… só precisamos de algumas pistas para começarmos a viver mais as coisas e isso… é urgente.

A miúdas do Armazém desejam o maior dos sucessos ao livro e ao seu autor!


Nota: Fotos gentilmente cedidas pelo autor Rui Melo

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