Abrigo Fundo, by Ricardo Caldeira


Espero que quando me conheceres continues a gostar de mim.

A última cadeira da manhã atrasou-o. Estava inquieto por estar tão atrás na fila da cantina. Não estava com particular apetite mas esfomeado do olhar dela. Andava absorvido pelo castanho vivo profundo e pelas pestanas, densas, imensas que lhe trajavam o rosto. Sabia que andava em direito e mais nada. À parte disso andava sempre rodeada de outros colegas, mais rapazes que raparigas, o que lhe tirava fôlego para se atirar do penhasco. Seria um mergulho a pique, dizer-lhe olá, comentar uma coisa qualquer sobre o tempo do momento e ficar pendurado pelo desinteresse que estava certo, ela lhe atiraria. 

Naquele dia almoçou sozinho sem a ver. A noite foi mais dura do que as outras. Andou inquieto de sonho para sonho, todos difíceis pela ausência dela. Acordou decidido a preencher o espaço das ideias com o vazio do esforço físico. Pelas sete e meia, com a temperatura já nos 16 graus de um maio tímido, lançou-se de patins à ciclovia junto à universidade. Ia embalado no equilíbrio dos braços junto ao corpo rasteiro para ganhar velocidade, e nem a viu. Do outro lado da estrada estavam os tais olhos castanhos num abraço imenso a Sara, sete anos de alegria e sorriso fácil, que entrava apressada no autocarro da escola, a despedir-se da mãe por detrás do vidro na companhia dos outros traquinas. À segunda passagem, os patins já não encontraram ninguém. Marta apressara-se a entrar para se preparar para as aulas, agora que a pequena Sara estava despachada para o primeiro embate com a tabuada dos dois.

Renato também se apressou para chegar a horas a Anatomia II para se concentrar nos ossos do pé. Uma dor de cabeça para o rapaz que só se lembrava dos olhos e das pestanas dela. Com a anatomia assim trocada correram duas horas a pensar na fila da cantina, onde chegou já com algum atraso. Marta já lá estava a recolher a sopa e o empadão de atum com salada. Viu-a a procurar a gelatina do costume, mas já não havia. Quando chegou à frente, Renato optou pelo peixe no forno e acompanhou com maçã cozida. Quando o empregado se aproximou para trocar o tabuleiro do empadão, Renato nem lhe deu tempo para o pousar, questionando logo se já não havia gelatina. Os bigodes do outro pareciam surdos à questão, concentrado que estava a encaixar o empadão na bacia de água quente para não se queimar. Quando voltou à linha da frente, já Renato estava a pagar, o homem atirou-lhe uma gelatina de morango. Surpreendido, Renato agradeceu e logo estremeceu. Perguntara pela gelatina por impulso, para ter um ponto de contato com os olhos dela. Mas agora que a gelatina tremia à sua frente no caminho para uma mesa de almoço ainda por sortear, sentiu-se ridiculamente pequeno, incapaz de avançar com a segunda parte do processo. 

Sentou-se numa mesa próximo dela, controlando o avanço do almoço. Quando percebeu que Marta se preparava para as últimas garfadas, pegou na gelatina e arrastou-se a medo até ela. Olá, disse. Sem que ela respondesse, continuou. Reparei que não tiraste sobremesa. Posso oferecer-te esta gelatina? Ela sorriu. Podes, gelatina de morango é a minha favorita. Deslumbrado com o sorriso dela, Renato sentou-se na conversa da gelatina, de como o empregado lha tinha dado sem lhe dirigir uma palavra, de como a gelatina faz bem aos ossos, os mesmos do pé que ele tem tanta dificuldade em distinguir. Ficaram nisto uma hora e meia. Por volta das quatro da tarde, Marta desculpou-se com um trabalho e seguiu apressada para ir buscar a filha. Trocaram números de telefone, não fosse preciso Renato avisá-la quando houvesse gelatina na Cantina. 

Renato passou o resto do dia a pensar naquela fuga à pressa imaginando obviamente um encontro com o namorado. Estava a queimar de vontade de lhe ligar. Mas dizer o quê? A que pretexto? Estás a sonhar Renato, pensou. Quando é que ela vai olhar para ti?, rematou.

Pelas nove da noite, pegou no telefone e começou a ensaiar uma mensagem. Olá. Tudo bem? Estava a pensar se poderíamos tomar um café, ou uma gelatina?

Que ridículo, pensou. Correu a apagar o que escrevera e pelo caminho ouviu o sinal de envio de mensagem que seguira por engano. Angustiado foi confirmar o que seguira na mensagem. Menos mal, pensou, seguira apenas o Olá. Quando logo de seguida o telefone estremeceu com a entrada de uma mensagem, Renato suspendeu a respiração. Na verdade desejou estar morto para não ter de se confrontar com a resposta. A medo pegou no telemóvel e deparou-se surpreendido com um Olá. Tudo bem? Com os níveis de ansiedade e adrenalina em modo de semi-trombose, Renato iniciou uma resposta. A essa seguiu-se outra e até às duas da manhã trocaram para cima de 50 mensagens. Falaram imenso e no outro dia encontraram-se na cantina e almoçaram juntos. Renato falou-lhe de sonhos, da infância dos medos pequenos e das brincadeiras com a avó em miúdo. Marta também lhe falou de sonhos, mas escondeu Sara, força inquestionável de amor que surgira inesperada ainda durante o tempo de liceu.


Nestes encontros noturnos, Renato cedeu rapidamente e à quarta noite de conversa, protegidos pela distância do telemóvel, não resistiu à doçura de lhe elogiar o olhar. Ela percebeu o avanço. Quando se despediram nessa noite, Marta virou-se ao seu diário como todas as noites para escrever. Começou pela data, esquecendo a hora tardia. Desenhou o nome de Renato e envolveu nele um coração pequenino, e escreveu, Espero que quando me conheceres continues a gostar de mim.

Ricardo Caldeira

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