Abrigo Fundo, by Ricardo Caldeira


Se não nos conhecêssemos e te cruzasses comigo num bar e eu te sorrisse, tu sorrias de volta?

O dia fora impossível. Começou com os e-mails azedos do ex-marido para gerir as férias das miúdas. Ainda agora começaram as aulas após o fim do ano e já o homem quer definir as férias da Páscoa! Ao fim de cinco anos a conversa ainda não avançou e detém-se lodosa nas mesquinhices que o divórcio acentuou. Depois foi na empresa. Juntaram o rebanho todo para falar da crise, dos mercados, das dificuldades do acesso ao crédito e blá, blá blá, tudo uma ameaça clara à malta do pedaço. Ou se atinam ou alguns não chegam às férias do verão.

Basta, hoje basta. São seis da tarde. O frio na rua tolera-se bem e não chove. O dia foi de sol de inverno luminoso e o banco do jardim estava ainda morno desse abraço. Kirsten sentou-se sozinha decidida a fechar o sistema, deixando como que evaporar da cabeça as tretas lá da empresa, o chato do ex-marido e até as miúdas. Sabe que estão as duas bem com o pai, demasiado bem no esquema super oleado das suas rotinas e controle onde nada foge ao programado.

Pura vida, pensou. Respirou fundo, ajeitou o peito no espartilho do fato de gestora de topo e esticou as pernas entregando-se à preguiça, satisfeita de estar ali, invisível para o mundo.

Ficou nisto uns dez minutos antes de ser atacada por um cão de porte ridículo a implorar festas e colo. Vinha na trela de uma miúda nos seus vinte e poucos, nuns jeans justos que lhe traçavam perfil de atleta. Naquele nano segundo Kirsten invejou aquelas formas, aquele olhar inocentemente provocador, imenso onde os homens devem penar por se perder.

Fez duas festas ao cachorro enquanto a miúda se equilibrava entre o esticar da trela e o teclar do telemóvel sempre a tilintar com mensagens a entrar. Kirsten trocou olhares apenas com o cachorro, deliciado com os afagos e as festas. Nisto a trela esticou e o cachorro já nada pode contra a força da miúda que o puxava para longe de Kirsten e das festas. Um ápice de sofrimento até nova paragem junto aos correios onde o cachorro encontrou novas mãos a quem se entregar.

Kirsten recostou-se e aconchegou o casaco protegendo-se do frio da noite que se foi deitando sobre o parque. Olhou à volta à procura de alternativa e só viu lojas a fechar. Resolveu seguir a pé em direção à estação de comboios, apreciando as montras das lojas antecipando os saldos. Parou numa livraria, atraída pelo título de um livro: Se não nos conhecêssemos e te cruzasses comigo num bar e eu te sorrisse, tu sorrias de volta?

Ainda olhou para a porta a confirmar se estava fechada tal o impulso de absorver aquelas páginas, as palavras que dão sentido aquele título. Quem o terá dito? Quando e a propósito do quê? Seguiu nos passos confusos daquele título e já só parou num bar a meio gás. Tinha lugares de sobra para se sentar e pedir algo para comer. Foi acompanhando a noite com gin tónico, dois, até entrar a banda que fazia as despensas da noite. O ritmo irlandês encheu o bar de palmas ao compasso da música, com vivas dos turistas que foram entrando. Aos poucos foi perdendo espaço de manobra à sua volta e menos de meia hora depois já partilhava a mesa com um casal australiano em viagem pelo país. Juntaram-se depois duas raparigas Gregas em Erasmus e um Italiano atraído pela simpatia das Gregas. O bar estava ao rubro, com uma alegria generalizada a que kirsten não conseguiu ficar imune. Ao terceiro gin tónico já metia conversa com a malta da mesa do lado sem perceber nada de Finlandês. Cantava como se tivesse cantado toda a vida, ela que nem nunca o fizera para as filhas quando pequenas. Estava perdida nesta animação quando o bater da porta anunciou a entrada de um vulto, num passo apressado a atravessar a entrada em direção ao bar. As pernas que levavam o corpo em dança para a frente do balcão, estavam bem torneadas num vestido curto e justo que roubava todos os olhares. Kirsten também já não controlava o olhar, que estava pousado nas costas da rapariga encostada ao bar. O feitiço só se quebrou na ovação à banda pelo grupo de Espanhóis que invadira o pequeno palco, distribuindo abraços e beijos aos artistas.

Quando as Gregas seguiram caminho em direção a outro bar, o Italiano seguiu-lhes o rasto, já abraçado às duas como se de velhos amigos se tratassem. Ainda vão acordar juntos pensou Kirsten a rir enquanto via os lugares na mesa a vazar. Foi quase imediato o rodar da cadeira ao seu lado esquerdo, forçado pela rapariga do bar, que se ajeitou para continuar a beber a sua Guinness.

Com o copo de gin a meio percurso de volta à boca, Kirsten sentiu o calor do braço da rapariga encostar no seu, parando nele, de forma suave e decidida. Kirsten que já estava para lá de alegre a arrastar meia dúzia de palavras das mais simples, não resistiu à provocação e respondeu encostando a perna à coxa da rapariga. Quando a mão que segurava a Guinness se evadiu para a mão de Kirsten que se encontrava pousada sobre a mesa, o olhar de Kirsten disparou em direção à outra sorrindo-lhe. Naquele instante em que o tempo congela por séculos, aninhou-se nela o título do livro na montra da livraria: Se não nos conhecêssemos e te cruzasses comigo num bar e eu te sorrisse, tu sorrias de volta?

Ricardo Caldeira

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