A sério? Isto foi nos anos 90?, by Ricardo Dinis


Quem esteja minimamente atento a estas crónicas, facilmente perceberá que elas se baseiam em muito do que é a chamada cultura pop. Nunca tive a pretensão que fosse de outra forma. O propósito desta aventura é precisamente reflectir de forma descontraída sobre algumas das grandes diferenças entre a década de 90 e a actual, separadas por meros 20 anos, um número infinitamente microscópico quando comparado com os 200 mil de anos que tem a espécie humana. Daí que, se esperam profundas análises ideológicas, sociais, económicas ou políticas, entre as quais, também existem obviamente, grandes diferenças, deverão desde já investir o vosso tempo noutras leituras, noutros fóruns e espaços onde estará muito bem mais documentada a evolução desde os anos 90 até aos dias de hoje.

Quero também ressalvar que a perspectiva saudosista com que pauto estas crónicas, não tem a ver com o facto de "antigamente ser melhor do que agora", ou estas memórias se devam apenas a saudades da infância e adolescência, alturas em que, como as responsabilidades da vida adulta praticamente não existiam, tudo parecia mais fácil. Têm apenas a ver com uma observação das mudanças dos tempos, com o que de melhor e pior isso nos trouxe e obviamente temos hoje coisas que eram impensáveis há 20 anos atrás e, não tenho qualquer dúvida: as nossas vidas são hoje em dia bem mais fáceis.
"Colocados os pontos nos is", o tema deste post será outro pelo qual também nutro grande interesse: Desporto. Poder-se-ia pensar que num espaço temporal tão curto, este item tão presente na nossa sociedade pouco teria mudado, mas a verdade é que isso aconteceu, seja pela influência das modas,  seja pela forma como o vemos ou por factores económicos, a verdade é que isso aconteceu. Se calhar foi por uma miscelânea de todos estes factores. Concordam? Ora venham comigo e acompanhem-me nesta pseudo reflexão!

Dois factores dos quais já falei anteriormente e que estão intrínsecamente ligados, contribuíram decisivamente para a forma como vemos o desporto, pelo menos em Portugal: a internet e a televisão.

Quem viveu a sua adolescência nos anos 90 facilmente se lembrará de os domingos serem dedicados em grande parte a ver desporto em família. Todos se recordarão da NBA ou da Fórmula 1 transmitidos pela RTP. Eram momentos que guardo com enorme nostalgia, pois uniam-nos à volta da TV para ver os duelos entre o Ayrton Senna e o Alain Prost, para saber quem levaria a melhor, por exemplo, no clássico Grande Prémio do Mónaco. Não sei se a vocês vos acontecia, mas depois dos magníficos repastos de domingo ao almoço, o meu pai ou um dos meus tios adormecia sempre no sofá, MAS, a televisão nunca poderia sair da bendita fórmula 1! Eles diziam-se grandes aficcionados deste desporto, apesar de invariavelmente adormecerem sempre, no máximo, à 3ª volta da prova. A verdade é que se alguém mudasse de canal, acordavam imediatamente, reclamando: "Eu estava a ver a fórmula 1", quando todos ouviam o leve ressonar de quem dorme sentado e com o traseiro enterrado na almofada do sofá. Não sei se era o ruído dos carros que embalava o sono, ou o estomâgo cheio de cozido à portuguesa, mas a verdade é que mesmo deixando-se embalar, nas voltas finais acordavam espontâneamente para ver o fim da corrida. Foi um mistério que nunca desvendei…

Outro desporto do qual sou enorme fã é o basket. A NBA era outro dos clássicos do fim de semana, fosse a rubrica NBA Action ao sábado ou o jogo de domingo. Nesta época todos, até a minha mãe, acho eu, sabiam quem era Michael Jordan e os Chicago Bulls e as enormes rivalidades entre estes e os Detroit Pistons dos bad boys, os Portland Trail Blazers dos incomparáveis Clyde Drexler e Terry Porter, os Utah Jazz, da dupla maravilha John Stockton e Karl Malone, dos LA Lakers de Magic Johnson ou os Boston Celtics, do genial Larry Bird. Dos mais velhos aos mais novos, todos seguiam com enorme interesse os jogos, conheciam equipas e jogadores e exaltavam com as grandes jogadas comentadas pelo saudoso Prof. João Coutinho e o verdadeiro guru da modalidade, Carlos Barroca.

Os Grand Slams de ténis, que se bem me lembro eram transmitidos pela RTP2, preenchiam também muitos períodos desportivos, com duelos também eles clássicos e históricos entre os ícones da década, tais como: Sampras, Agassi, Boris Becker, Stefan Edberg, Sergi Bruguera ou Michael Chang.

Além da cultura desportiva ser bastante maior na altura, o convívio social, a interacção entre as pessoas à volta do desporto era também muito maior. Reparem que chegámos até aqui sem falar do desporto rei, o inevitável futebol. Não perdi muito tempo com ele, porque já na altura era e continua a ser o que mais paixões e infelizmente também ódios movimenta, entre as grandes massas. Os exemplos que referi eram desporto na verdadeira acepção da palavra: competição, disputa, superar limites, dedicação, rivalidade, mas sempre com enorme fair play. Víamos desporto em família, pelo gozo deste em si e não por ser o nosso clube do coração que estava em jogo.

Inicialmente adverti para o facto de, provavelmente, o tema desporto ser neste post algo indirecto, pois todos os desportos que referi continuam a existir e a ter milhões de fãs. A grande diferença prende-se na minha opinião, com factores económicos e de alargamento do espectro de opções. Senão vejamos: hoje em dia o grande canal de desporto é pago, a Sportv, como é do conhecimento comum. Além disso, temos na internet inúmeros canais de streaming em que podemos escolher o desporto que queremos ver. O desporto mais do que nunca tornou-se num negócio que movimenta milhões, veja-se os recentes contratos milionários estabelecidos entre os maiores clubes de futebol portugueses e a operadora NOS. Voltando ao leque de opções, além da internet, hoje em dia, temos vários canais por cabo, entre os quais, um dos mais conhecidos a Eurosport, que transmite somente desporto.

Continuam comigo? Perfeito, estamos quase a chegar ao fim! O que quero expressar é que talvez víssemos transmissões desportivas pelo facto de não haver mais opções, haver apenas 2 canais e só uma TV em cada lar e não por sermos todos, grandes fãs de desporto. Poderão ter sido as circunstâncias daquela altura que fizeram com que dedicássemos tempo em conjunto ao desporto na sua plenitude. Isto leva-me a duas conclusões: o que mudou ao longo destes 20 anos não foram tanto as coisas em si, mas sim a forma como olhamos para elas. Sendo que aqui o impacto da tecnologia, como tenho vindo a referir, foi para mim o factor mais influente. A segunda conclusão alia os factores económicos, que tornaram a televisão num grande negócio ao aumento drástico da escolha dos consumidores. Sendo nós um organismo, com cerca de 86 mil milhões de neurónios, isso leva-me a pensar que por vezes termos menos estímulos, como acontecia nos anos 90 em que as opções eram menores, nos permitia estar mais focados naquilo que fazíamos em cada momento, como por exemplo simplesmente ver desporto, porque era essa a única opção, mas era boa, porque nos envolvíamos, tanto com o tema em si, como com as pessoas que comungavam connosco esses momentos.

Hoje em dia dispersamos demasiado a nossa atenção. É possível ver vários jogos ao mesmo tempo e por vezes ver um desporto na internet e outro na televisão. Ora obviamente, a nossa concentração não poderá ser a mesma e perdemos muito da beleza, neste caso, do desporto, mas poderia ser de outra coisa qualquer. Não me recordo de na última década me juntar com família ou amigos para ver outro desporto que não fosse futebol, o que ao nível de uma das grandes invenções da nossa civilização me parece bastante redutor.

É verdade, as coisas eram assim nos anos 90 e não foi há assim tanto tempo!

Ricardo Dinis

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