Abrigo Fundo, by Ricardo Caldeira


Saíram os três. Eles agarrados aos sacos e o velho agarrado a eles, para corrigir a falta de equilíbrio.

O velho há muito que já esgotara a paciência para tontices. Tinha já muita poeira nos pés de andar por caminhos onde só se passa depois de muita estrada.

Regra geral os putos nos seus músculos de vinte anos, percorreram talvez uns vinte centímetros dessa estrada. Estão dois destes exemplares à sua frente na fila do supermercado. Têm a cabeça ocupada com a minissaia da rapariga da fila do lado e os braços atafulhados de garrafas de cerveja. Neste desequilíbrio, as palavras que espirram da boca são barulhentas e misturam-se com as gargalhadas, numa tontice disparatada. O rapaz de mão dada com o pai, na fila da ponta, deve andar pelo 2º ano e nos seus sete anos deve estar a pensar o mesmo que o velho. Que belo par de chapadas naqueles dois para acabar com a algazarra.

A coisa ia assim lenta no supermercado atulhado de gente em férias e com apenas três caixas abertas. As mesmas do resto do ano, tempo em que ir ao supermercado é uma paz para o velho e para todos os que habitam na vila.  

Quando a máquina registradora de uma das filas se engasgou com a falta de papel, os dois putos começaram a atirar graçolas em todas as direções, mas sobretudo à minissaia da tal rapariga na fila e ao decote arrojado de uma das raparigas da caixa. Ambas, incomodadas com a situação, reagiram com atrapalhação. A da minissaia deixou cair uma caixa de ovos que se estilhaçou tipo vidro e a da caixa só à quinta tentativa conseguiu que a máquina mordesse a ponta do rolo e entrasse no ritmo certo para mastigar o papel no andamento ditado pelo registo das compras.

O velho achou que bastava e entrou na palhaçada. Saiu da fila e do bom posicionamento em que estava para ser atendido e colocou-se mesmo por detrás dos dois putos, que continuavam submergidos na sua arrogante estupidez.

Aos poucos foi incomodando os dois, primeiro com o carinho das compras a roçar a perna de um, depois com a mão trémula muito perto da anca do outro. Começaram a ir olhando para trás a ver o que se passava. Quando o velho pousou a mão no ombro do mais espadaúdo na desculpa do cansaço da espera, o puto quase mudou de cor, sem saber o que fazer. Não tirou a mão mas estava visivelmente afetado com a quebra do seu espaço vital. A mão do velho foi pesando no ombro puxando a sua respiração cada vez para mais perto do pescoço do puto. 

À volta, todos, até o rapaz de sete anos, se aperceberam do que se estava a passar. Um velho a infernizar dois putos, no seu próprio jogo.

A fila do velho e dos putos, voltou entretanto a parar, quando o terminal de multibanco resolveu perder o sinal não reconhecendo nenhum dos 4 cartões da senhora que já estava de sacos na mão pronta para sair daquele número. O velho achou tudo de uma providência divinal e aproveitou para sussurrar ao ouvido do puto onde estava ancorado. Num tom arrastado e com malícia perguntou-lhe se eram puros ou híbridos. Sentiu na palma da mão o tremor do desgraçado, que ainda caiu na asneira de responder, Como? O velho não desperdiçou a oportunidade e apertando-lhe o ombro com firmeza, esclareceu. Se estão só com homens da mesma idade ou se aceitam amigos mais maduros. Naquele momento o puto encheu o corpo de repulsa com os músculos a saltar quase da camisola, libertando-se da mão enrugada. Não desarmando o velho lançou-lhe pronto um sorriso, daqueles que homem macho lança às miúdas, encostado ao bar na discoteca. O coração dele deveria estar a mil. O pânico era visível nos movimentos inquietos que fazia no pouco espaço que o velho lhe permitia ocupar entre o seu corpo inclinado e o vizinho da frente. Ouviu-o claramente a dizer para o amigo, Este velho está a fazer-se a mim. O outro, olhou o velho de soslaio e logo entrou na fatura da brincadeira. Aproveitando o contato visual o velho lançou a provocação. Não precisas de ficar com ciúmes. Também podemos ser amigos. Nesta altura já ninguém conseguiu segurar as gargalhadas. Foi geral o eco da risota em torno do par de musculados. Quando os dois já estavam a pagar, o velho agarrou na mão do ombro que já conhecia e voltou à carga. Fazem um casal muito simpático, disse, sem medo que o ouvissem na peixaria lá no fundo da loja. E continuou. Posso pedir-vos o favor de me acompanhar a casa para ajudar com as compras? Aturdidos que estavam nem tiveram tempo para articular qualquer tentativa de resposta. Muito obrigado, respondeu logo o velho. Nem seria de esperar outra coisa de um casal tão saudável, rematou.

Saíram os três. Eles agarrados aos sacos e o velho agarrado a eles, para corrigir a falta de equilíbrio.

Ricardo Caldeira

Sem comentários

Com tecnologia do Blogger.