A sério? Isto foi nos anos 90? By Ricardo Dinis


Ao longo destas crónicas já passei pelo cinema, pela música, pelos smartphones, etc. Chegou a hora de falarmos da televisão, essa caixinha mágica que mudou o mundo quando apareceu no já longínquo ano de 1928, com a primeira transmissão a ser atribuída ao Russo Vladimir Zworykin, através da criação do tubo iconoscópico. 

A forma como fomos vendo TV foi obviamente alterando-se ao longo do tempo, passámos de imagens embaçadas em tons avermelhados, para o clássico preto e branco, pelo aparecimento da cor, até aos dias de hoje onde o HD, a alta definição e o som surround são coisas já banais para qualquer um de nós.

Na década de 90, a televisão representava um papel crucial no nosso dia a dia e diria até na sociedade. Grande parte da nossa vida era planeada em função da TV, pois não podíamos de maneira nenhuma perder o nosso programa favorito e antes da chegada dos videogravadores, não era sequer possível guardar aquelas imagens, que nos eram tão caras.

Quem não se lembra de clássicos como: Esquadrão Classe A, Knight Rider, o Bocas, Marés Vivas, Jogos sem Fronteiras, Power Rangers, Big Brother ou o mítico, Dragon Ball?

Estes e muitos outros programas preenchiam horas das nossas vidas, ditavam modas, expressões e até comportamentos. Sou obrigado a parar e dedicar algum tempo ao fenómeno Dragon Ball. A manga de revista japonesa criada por Akira Toriyama em 1984, que depois deu origem à série de anime exibido no Japão e em todo mundo entre 1986 e 1996, foi a anime/manga com  maior sucesso mundial de todos os tempos. 

Era muito comum, nas escolas secundárias, pararmos nos intervalos para ver o Dragon Ball. Ninguém perdia pitada do que se passava com Son Goku e companhia na sua busca pelas tão almejadas bolas de cristal. Não me lembro desde essa data, de um fenómeno semelhante a nível televisivo, que captasse tanta audiência e influenciasse tanto os jovens da altura. 

A série reunia de forma inigualável todos os ingredientes que nos prendiam à televisão: comédia, drama, luta, personagens maquiavélicas, suspense, intriga e um enredo que nos deixava completamente colados ao ecrã. 

Atualmente, como é óbvio, não frequento escolas secundárias, mas tenho sérias dúvidas que os jovens atuais acompanhem qualquer programa de televisão seja na escola ou mesmo em casa. Os seus telemóveis, tablets e afins, ocupam esse lugar e as redes sociais encabeçam, por larga margem, a ocupação dos seus tempos livres. 

Naquela altura discutíamos face a face quem ganharia a luta entre o Vegeta e o Son Gohan, agora partilhamos posts ou vídeos do Youtube sem sequer falar. Quanto muito, enviamos um smile, pois escrever já dá demasiado trabalho!
Depois disso, só me lembro de tanto interesse num programa televisivo quando apareceu o Big Brother 1 emitido pela TVI a partir de 3 de setembro de 2000, culminando 120 dias depois, com a épica vitória do Zé Maria.  Nessa edição assistimos provavelmente à abertura mais inédita de sempre de um noticiário: a expulsão de Marco Borges por agressão física e verbal a Sónia Veiga. Quem não se lembra deste episódio? 

Era nessa altura um ingénuo estudante de psicologia na Universidade de Coimbra. Recordo-me de as cantinas se apinharam de gente à hora do jantar, para saber esta última novidade, debater e opinar sobre o que tinha acontecido. Esse episódio permaneceu tema de conversa durante semanas a fio. Na atual pressa diária em que vivemos, o que acontece hoje, amanhã já esquecemos, pois temos demasiadas coisas para fazer e mais milhentas em que pensar…

Deixem-me presentear-vos o resumo dos participantes desse edição (atenção que esta pérola pode provocar risos incontroláveis):

Nome
Residência
Ocupação
Idade
Posição
 Riquita
Guimarães
Professora de inglês
28
14.ª
 Ricardo V.
Parede
Surfista, escritor e actor
30
13.º
 Ricardo A.
Oeiras
Informático
24
12.º
 Maria João
Braga
Estudante
20
11.ª
 Marco Borges
Lisboa
Kick-boxing
24
10.º 1
 Sónia Veiga
Mirandela
Estudante
24
9.ª
 Carla
29
8.ª
 Paulo
Monte Gordo
Electricista
31
7.º
 Marta Cardoso
Loures
Estudante / Barman
23
6.ª
 Mário
S.Mamede de Infesta
Estudante
19
5.º
 Telmo
Leiria
Proprietário de uma companhia de alumínio
23
4.º
 Célia
Gaia
Estudante
18
3.ª
 Susana Almeida
Paredes
Trabalhadora numa loja de roupa
25
2.ª
 Zé Maria Seleiro
Barrancos
Construtor
27
Vencedor

Nota 1: Expulso após discussão violenta com Sónia resultando em agressões físicas e psicológicas.

Acho que a televisão tem os dias contados. Com a generalização da internet, dos canais de Youtbe, das séries online, etc., cada vez olhamos menos para aquela outrora caixa mágica, que preenchia as nossas almas. 

Tal como a conhecíamos, a TV já não existe. Podemos através de uma box gravar todo o nosso programa preferido, andar para trás e para frente para ver só aquilo que realmente nos interessa. No fundo vemos o que queremos e quando queremos, entre milhares de opções e canais à escolha. 

Claro que este fator nos brinda com maior conforto, maior liberdade para gerir o nosso tempo e maiores possibilidades de escolha, pois vemos só realmente o que queremos e não estamos sujeitos aos clássicos 4 canais, em que quando não estávamos em casa e queríamos ver a nossa série favorita, tínhamos de recorrer ao VHS dos nossos pais e depois rebobinar a fita antes de nos sentarmos no sofá.

Tal como os outros temas que tenho saudosamente lembrado, nestes ensaios de nostalgia, há coisas boas e más na evolução dos tempos. Uma coisa é certa: o misticismo e a magia da TV vêm-se perdendo ao  longo do tempo, até que, pelo menos é o meu vaticínio, um dia sucumbirá às novas tecnologias. A ver vamos…
Tanto no caso do Dragon Ball, como do Big Brother as pessoas juntavam-se para ver televisão. A interação e contacto humano faziam parte do próprio espetáculo.

É verdade, as coisas eram assim nos ano 90 e não foi há assim tanto tempo!

Ricardo Dinis

Sem comentários

Com tecnologia do Blogger.