Abrigo Fundo, by Ricardo Caldeira


Assustado o outro, decidiu não entrar

O dia corria naquela sonolência do verão, aquecido em 37 graus sem grande previsão de descida à noite. A aldeia por ser no interior acumulava a este cenário um rio com água rasteira, onde era impossível deixar o corpo boiar sem ficar ancorado no leito rochoso.

O rapaz nunca imaginara ficar aqui retido por dois dias à conta de um radiador. Mas a peça vinha de um entreposto noutro concelho e por ser fim de semana a coisa só estaria resolvida lá para segunda-feira.

Contrariado com o carro, com o raio da peça, com o fim de semana, com o calor, com tudo, atirou-se ao rio, acreditando ser possível afogar num fio de água ridículo todos os azares do mundo que se concentraram ali, naquela aldeia na serra.

Vestiu a cueca que lhe pareceu mais calção de banho e menos roupa interior, improvisou uns chinelos nos sapatos sem meias e dobrou as mangas da camisa em estilo bom vivant na Riviera francesa. Um mimo sem ninguém para o apreciar num raio de quilómetros.

Imaginando um cenário de ilhas gregas entrou de rompante na água procurando evitar os calhaus. Ignorar de forma tão ingénua a temperatura gélida da água, valeu-lhe um arrepio pelo corpo, tão intenso, brutal e repentino que o atirou desamparado com as costas nos calhaus. Naquele instante o silêncio da serra encheu-se da fúria dos palavrões, remédio ineficaz para as dores, mas tão calmante para essa frustração irracional de estar chapinhado em meio metro de água fria à rasca das costas. 

Ao fim de duas horas conseguiu arrastar-se para o largo da aldeia, onde resolveu parar para descansar. Quando passou por ele o puto que trabalhava na tasca onde usara o telefone para ligar ao entreposto, apressou-se a chamá-lo para pedir ajuda. As costas estavam a consumir-lhe todas as forças e alento. O puto entendeu a gravidade da coisa quando vislumbrou uma lágrima tímida no rosto do homem. Chegou-se perto e disse-lhe que a rapariga da casa da eira podia ajudar. Quem? Perguntou o outro. O puto meio tímido, avançava a medo na conversa. A rapariga da eira, continuou, faz massagens e ajuda os homens daqui da serra com os achaques do corpo. Tolhido pela dor o homem só à terceira explicação do puto, mais gráfica e já com gestos, é que percebeu a natureza da casa da eira. Meio na dúvida e com claro receio da qualidade terapêutica da casa da eira, o homem questionou o puto se a rapariga ao dar a massagem e tocando-lhe as costas, não pioraria o hematoma já visível e as dores crescentes. Certeiro o puto atirou, A senhora não toca, bate.

Sem perceber o sentido da frase e sem outras opções, decidiu seguir à casa da eira. Seguiu sozinho que o puto já levara lambadas suficientes do pai para perceber que as massagens da rapariga não compensavam as massagens do pai. Nem se queria aproximar da casa, que depois era impossível despegar do sorriso da rapariga, um porto seguro onde quando se atraca já não se quer zarpar.

O homem assim que pôs os olhos na rapariga percebeu logo a frase do puto.
A rapariga era uma senhora, olhar profundo, gestos seguros feitos à sedução. E depois as mãos não tocavam o corpo, batiam fundo muito para lá da pele, colocando o toque num plano de êxtase, com o corpo a pairar para lá das costas e das dores lancinantes. Naquela hora e meia o corpo do homem viajou para lá de si. O calor das mãos, libertou-o primeiro da dor e depois das costas. Esteve suspenso ligado apenas pela música baixinha de um gira-discos. Não percebeu a melodia, o ritmo ou o compasso. Mas deixou-se embalar no seu encantamento tal como um gato com um novelo de lã.

Quando saiu, cruzou-se com um homem receoso de meia-idade a decidir entrar. Tocou-lhe no ombro e segredou-lhe a sorrir, A senhora não toca, bate.
Assustado o outro, decidiu não entrar.

Ricardo Caldeira

Sem comentários

Com tecnologia do Blogger.