Abrigo Fundo, by Ricardo Caldeira


Desta viagem não desço tão depressa

A primeira vez que a vi nem me apercebi. Estava dormente com a queda. O passeio atravessara-se nos meus passos sem tempo para o subir. O embate foi tosco e caí desamparado. Ela estendeu-me a mão e ajudou-me a levantar o olhar cabisbaixo com queda tão parva. A coisa foi tão breve que não olhei bem para ela. Ficou apenas no nariz a brisa de um perfume de verão.

Foi na semana seguinte que a vi verdadeiramente. Estava nos correios à espera do meu número para despachar um amontoado de folhas para testar o interesse de uma editora. Nervoso com a espera, fui deitando o olhar à volta à procura de uma novela interessante onde poisar a atenção. Corri pela sala e dei com um casal idoso mudo entre si. Achei que não valia a pena. Estendi o olhar para o outro lado da sala e encontrei quatro putos a encher a paciência do pai. Mais à frente uma senhora com um cão ao colo a verter irritação pelo tempo de espera. Ao seu lado uma mulher morena, donde já não desprendi o olhar. Estava num tom de verão provocador, que nos faz sorrir. Bonita, de olhar seguro e terno. Queria aproximar-me. Houve um momento, de desvario é certo, em que me apeteceu abraçá-la e sentir-lhe a pele.

O acaso colocou-nos lado a lado quando a morena cedeu o lugar a um jovem a braços com um pé partido e o natural desengonçar das muletas. Ficámos à distância de meio metro, naquele ambiente de espera coletiva em que os olhares não se cruzam. Pude admirá-la mais um pouco e perceber nela a brisa com perfume de verão. Era ela. Só podia. Naquele momento a oportunidade era breve e resolvi não desperdiçar um átomo. Olá, disse-lhe. Nós já nos cruzámos. Sim? questionou prontamente. No outro dia, respondi, ajudou-me a levantar quando caí no passeio. Ela sorriu. Pois foi, disse, procurando esconder o sorriso.
E aquele sorriso foi o início da nossa conversa, que nos levou dali a um café em fim de tarde já no meio de setembro. Rimos imenso e percebemos que erámos bons nisso. Dessa descontração à atração das mãos, aos primeiros beijos e aos corpos entrelaçados nos lençóis de início de outono foi um tiro. De partida, tipo sinal sonoro na estação de sete rios. A vida é uma camioneta. Nela nos sentamos por acaso na expetativa da companhia de viagem. 

A nossa camioneta vai ganhar certamente amolgadelas e riscos, das curvas mal medidas que nos atiram à berma, mas é nossa. Foi nela que fizemos, estradas inimagináveis, que superámos ladeiras e nos deleitámos com vales encantados, na companhia que o destino nos atiçou.

A minha camioneta, ganhou estatuto, tenho nela passageira de estilo, uma morena que encanta e que segue na minha estrada. Desta viagem não desço tão depressa.

Ricardo Caldeira

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