A sério? Isto foi nos anos 90? By Ricardo Dinis



Nesta altura do ano há um tema que é incontornável: festivais! Por mais que não se queira é impossível não ouvir falar deles, tal é o mediatismo que atingiram, sendo notícia em todos os meios de comunicação social.

Confesso que sou um festivaleiro inveterado. Desde que fui ao meu primeiro Paredes de Coura em 2002, com os meus ingénuos 19 anos, nunca mais parei. Naquela altura foi o "nu-metal" dos Korn, com guitarras abrasivas, cruas, a roçar o rock industrial, com os berros inebriantes de Jonathan Davis, que incendiavam a multidão e, claro, os Incubus, uma das minhas bandas de eleição daquela altura, com o "scrath", o poderoso baixo e a capacidade vocal de Brandon Boyd, a fazerem-me deslocar até à idílica paisagem nas margens do rio Coura. Sei que esta crónica se refere aos anos 90 e aqui já tínhamos atravessado a barreira do novo milénio, mas as diferenças face há última década ainda eram muito poucas e sei que vocês me vão perdoar esta pequena imprecisão.

Com o passar dos anos continuei a ir a festivais, muitas vezes com uma cadência superior a um por ano, passei pela Zambujeira do Mar, no na altura mítico Sudoeste, pelo Hype@Tejo, por Vilar de Mouros, pelas Músicas do mundo em Sines, pelo Marés Vivas em Gaia e, mais recentemente, quase todos os anos, pelo Super Bock Super Rock e pelo NOS Alive. As diferenças foram-se acentuando ao longo dos anos. Aquilo que naquela época eram verdadeiros festivais de música, em que toda a gente ia essencialmente pelas bandas, para ouvir o som, acrescido obviamente da vontade de passar bons momentos entre amigos em clima de férias, neste momento, esvaneceu-se e, pelo que tenho visto, receio mesmo que se venha a extinguir…

Obviamente que há festivais que continuam a primar pela enorme qualidade na seleção dos 'line-ups', como por exemplo o NOS Alive, o Super Bock ou o mais novinho Primavera Sound. Mas mesmo nestes, as mudanças dos tempos fazem-se sentir drasticamente. Este ano, o NOS Alive estava inundado de bancadas VIP, com marcas como Volkswagen, Randstad ou EDP, que nada têm a ver com música. Mais: quem é queria nos anos 90 bancadas VIP para ouvir rock? Os concertos eram para ser ouvidos "lá à frente", no meio da multidão, com algum 'mosh' à mistura.

A passagem do Super Bock para o Parque das Nações reflete precisamente os mesmos interesses económicos e a tentativa de concorrer com o anterior, como festival urbano, quando na minha opinião, aquela localização na Herdade do Cabeço da Flauta, com a praia do Meco ali ao lado, faziam toda a diferença e tornavam o festival singular. O que há 15 anos atrás eram festivais de música, hoje em dia aproximam-se mais de feiras populares. O maior exemplo disso é o Rock in Rio em que no meio da parafernália de publicidade, marketing, brindes, slide e o diabo a sete, a música quase se torna secundária. No último fim de semana senti isso na pele, desta vez a norte, no MEO Marés Vivas.

Não ia a este festival há cerca de 10 anos, quando na altura, numa das suas primeiras edições me deliciei com a eletrónica poderosa e, ao vivo, exuberante, dos magníficos Chemical Brothers. Apesar daquele local nas margens do Douro não ser o melhor sítio do mundo, todo o "povo" estava ali reunido pela música e essa energia sentia-se… Passada uma década regressei para ver uma das lendas da música, o grande Elton Jonh.

A entrada no recinto deste festival fere-nos a vista logo à partida! Mais uma vez, as inúmeras marcas, stands e publicidade parecem metralhadoras, que nos atacam por todos os lados. Onde está a música afinal? Perdida no meio de mais uma zona VIP da Caixa Geral de Depósitos, que mais parece a bancada central do Estoril Open, com os espectadores a exibirem orgulhosamente os seus chapéus de palha, novinhos em folha.

O mais gritante foi ouvir uma adolescente numa entrevista à RTP dizer que não se lembrava de nenhuma música do Elton Jonh!!! Como é possível rapariga? Este músico, compositor, pianista e produtor já vendeu mais de 450 milhões de álbuns e teve 25 discos de platina, sendo claramente um dos maiores 'hit makers' do nosso século, apeteceu-me responder. Ah já sei: nessa altura a música interessava muito mais… Agora desde que traga o meu chapéu, lenço, pin, luva, toalha ou outro qualquer brinde foleiro está tudo bem.

Apesar deste cenário de consumo exacerbado, foram surgindo festivais de menor dimensão, menos mediáticos, que preenchem este vazio, como o Milhões de Festa em Barcelos, o Festins em Alcains, o Reverance no Cartaxo, o Bons Sons em Cem Soldos ou o Indie Music Fest em Baltar, entre outros. Tiro o chapéu e faço uma vénia a esta gente, que consegue com poucos meios e sem recorrer a orçamentos gigantescos fazer festivais de música séria, onde cada um vai pelo som, pelos amigos, pelo espaço e por um ambiente saudável, sem brindes, sem publicidades e desculpem-me: sem merdas! Pela música xiça!

Outra das grandes diferenças dos festivais da "outra" década eram as t-shirts. Era um orgulho enorme comprar uma destas peças de um festival, para poder orgulhosamente exibir nas costas o cartaz desse ano e não deixar dúvidas a ninguém de que lá estivemos. Esse era um marketing saudável. A t-shirt marcava de forma icónica a nossa passagem pelos concertos e avivava as nossas memórias de momentos que nos tinham ficado na retina e principalmente no ouvido…

Hoje em dia, pelo menos que me aperceba, já quase não se fazem t-shirts dos festivais. Ou se se fazem, já ninguém as quer ter, seja porque estamos todos saturados de "tralha" publicitária, ou porque uma qualquer grande marca vai sempre sobressair e o que era uma peça de roupa de valor, acabará por servir para passarmos a ferro ou correr ao fim de semana.

Quando comecei a ir a festivais, íamos a Paredes de Coura, a Vilar de Mouros ou à Zambujeira do Mar, agora vamos ao VODAFONE Paredes de Coura, ao NOS Alive ou ao MEO Sudoeste…

É verdade, as coisas eram assim nos ano 90 e não foi há assim tanto tempo!

Ricardo Dinis

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