Crónicas da Brilha


O fio do destino

Sentada à janela, Shiori bordava. Sobre um kimono cor-de-rosa desenhava com linha ocre e dourada os diversos contornos de um leque aberto e de folhas secas sopradas pelo vento. Nas mangas, pequenos crisântemos de inverno pareciam tocados pela brisa do amanhecer. Em tantos dias trabalhava já naquela pequena obra de arte que a menina Naomi usaria no Sichi-go-san no seu sétimo aniversário e, enquanto a agulha fazia a sua dança colorida através do tecido, Shiori deixava a sua mente vaguear.

Eram muito diferentes de si as pessoas que usavam as suas obras, com o gosto da opulência, poucas compreendiam o significado de cada um dos pontos, a simbologia dos motivos e das cores que usava e que em cada uma deixava muito de si e da sua alma. Ela conhecia a magia das cores, nas suas mãos um ténue fio de linha desinteressante tornava-se um pássaro quase em movimento a beijar as flores da primavera, mas Shiori por vezes sentia-se muito só. Tinha vestido damas da corte e até nobres dignitários, muitos deles eram já memórias e pouco mais que o pó que se cola aos tabis na estrada, tinha visto ascensões políticas assombrosas e quedas na miséria ou na desonra tão ou mais aparatosas e permanecera sempre serena, entre as suas flores de cerejeira e colibris, tratando as cores por irmãs e fazendo quadros em movimento. A beleza fugaz de um instante tinha provocado paixões intemporais e Shiori sentia-se estranhamente cúmplice desse vestido que saíra das suas mãos e dos três filhos que nasceram desse casamento feliz. Por isso Shiori bordava, à luz do sol que se escoava pela janela, de onde via uma pequena nesga de céu e o que era o seu mundo inteiro. Das suas mãos nasciam dragões vermelhos bufando fumo pelas narinas e outros animais de lenda. Nunca os tinha visto, mas a todos tratava por iguais, todos eram seus filhos, e sempre lhe tinha bastado essa magia de criar e tecer destinos com uma paleta infinita, nunca se questionava, nunca se expunha. Aparentemente uma peça era encomendada com indicações mais ou menos precisas e, concluída dentro do prazo, era pago o preço acordado. Mas não era por isso que Shiori trabalhava incansavelmente, simplesmente, desde que se lembrava, tinha este dom. Os seus olhos nunca se desviavam da retidão do desenho, da curva das hastes das flores e era como se vivesse nesse mundo de coisas irreais e imaginadas.

No dia em que concluiu a encomenda para a menina Naomi, recebeu instruções para ir entregar a obra a casa dos pais. Shiori arranjou-se, calçou os seus melhores tabis, apertou contra si o embrulho, e saiu para a rua procurando proteger-se da chuva miudinha daquele fim de tarde.

Os ruídos à sua volta, como uma canção tamborilante, foram ensopando a sua alma. A menina Naomi, apesar de tão jovem, estava já prometida a um nobre com mais do dobro da sua idade. Shiori nunca tinha tido esse problema, os omiai eram para os ricos, para alianças políticas ou comerciais em que se usavam os filhos como moeda de troca. Shiori sempre tinha sido livre, mas nunca tinha amado. Afastou esse pensamento e seguiu, segurando nas mãos húmidas da chuva o chapéu frágil. Parecia que toda a natureza consigo chorava esse amor que tantos sonham e poucos encontram. Está tudo errado – pensou.

Naomi nunca recebeu o seu kimono, mas também nunca soube o quão importante fora na vida de Shiori. Nunca se cruzaram, nunca puderam trocar uma palavra, mas ficaram ligadas nesse instante em que tudo mudou.

No dia seguinte, ao amanhecer, Shiori tinha partido. Ninguém soube para onde foi, mas para onde quer que tenha ido, deixou pássaros e dragões e crisântemos adormecidos num voo colorido de segredos.

As vizinhas perguntavam-se para onde tinha ido deixando todos aqueles tesouros, e o aguadeiro, que passava gritando o seu pregão, assegurou-lhes que a tinha visto seguir o voo de uma borboleta.

Ana Brilha

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