A sério? Isto foi nos anos 90? By Ricardo Dinis


Convívio social. Na minha adolescência, e mesmo enquanto jovem adulto, era comum reunirmos numa casa um grupo de amigos para noites de jogos sociais. Trivial Pursuit, Monopólio, Party and Company, Risco, Pictionary… estavam entre os principais escolhidos. Eram noites infindáveis de convívio, de competição, de adrenalina pura cada vez que ganhávamos um queijinho ou conseguíamos um novo hotel na rua do ouro. O saudosismo é algo que tem marcado esta crónica desde o início, não por lamechice romântica ou por revivalismo exacerbado, mas porque havia hábitos e costumes que realmente eram mais saudáveis há 20 anos atrás. Estes jogos além de estimularem o hardware que comanda o nosso corpo, essa máquina a que chamamos cérebro, eram momentos de puro convívio, de competição, de confraternização entre amigos ou família, eram algo que aproximava as pessoas. Tudo isto fazia com que dependêssemos mais uns dos outros, pois se não houvesse quórum, não haveria sessão de jogo. Isto fazia com que cada um se comprometesse e comparecesse religiosamente a estas sessões terapêuticas de saudável interacção humana!

Nos dias que correm, os smartphones fazem as vezes dos jogos de tabuleiro, cada um vive voltado para o ecrã do seu telemóvel ou tablet e não precisa de mais ninguém para jogar os seus jogos preferidos. Podemos com um click estar a competir com uma pessoa da china ou da Califórnia, que jamais iremos ver na nossa vida. Os jogos como forma de convívio social e de interacção face a face foram perdendo expressão. Foram surgindo novas versões, mais elaboradas, os magic the gathering e outros que tais, mas que acabam por ser um nicho, muitas vezes apelidado como sendo de malta geek, nerds ou cromos. É cada vez mais comum numa mesa de café vermos pessoas de todas as idades, agarradas ao seu telemóvel viciadas nos candy crash, farmville ou angry birds, sem sequer levantarem os olhos para verem o eléctrico que passa, a menina bonita ou o casal de velhotes que passeia serena e despreocupadamente, pois a vida pode esperar.

Recentemente descobri através de um amigo o jogo “The resistance”, que aconselho todos os leitores a experimentarem. Reúnam um grupo de amigos e descubram, de certeza que não se vão arrepender! Proporciona momentos de plena interacção social, de discussão, debate de estratégias, bluff, trabalho de equipa, empatia, gargalhadas e competição entre pessoas que se estão a ver momento a momento, com caras e expressões reais, que valem ouro e são aquilo que continua a alimentar-nos a alma, digam o que disserem.

O imediatismo da internet e dos smartphones, tal como tenho vindo a defender nestas crónicas, poderá ter como risco disseminar as relações humanas e vivermos uma vida cada vez mais solitária e robotizada, como tão bem retrata o filme “Her”, em que Joaquin Phoenix se apaixona por uma máquina, um sistema operativo que está sempre ali, à disposição para satisfazer as suas necessidades, interpretada magnificamente pela voz rouca, quente e sexy da Scarlett Johansson. Esta visão do cineasta Spike Jonze intriga-me e provavelmente foi um dos filmes que me motivou a escrever estas crónicas, pois fez-me reflectir sobre a natureza humana, sobre se com o evoluir da espécie cada vez precisaremos menos uns dos outros, como nos jogos online versus tabuleiro e a relação homem-máquina será cada vez mais forte e intrínseca a cada um de nós e acabe por substituir as relações reais, de carne e osso…

Para um serão de jogos eram precisas pelo menos quatro pessoas, agora basta-nos uma ligação wi-fi e um qualquer gadget ligado à rede.

É verdade, as coisas eram assim nos ano 90 e não foi há assim tanto tempo!

Ricardo Dinis

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