Crónicas da Brilha


A moira do poço da vila

O Mário, com as suas mãos pequeninas, costumava esconder, bem no fundo do pote que ficava defronte da casa dos avós, toda a espécie de brinquedos. Era como uma arca do tesouro, onde soldadinhos de chumbo e piões rodopiavam na sua imaginação com piratas e bolas de todos os tamanhos e feitios.

Desse mundo de infância ele guardava a imagem do avô, autoridade serena que tinha toda a espécie de estórias na algibeira, ao calor da lareira, quando lá fora o vento e chuva uivavam por entre as traves do telhado como que a reclamar entrada.

O Mário não se importava que os brinquedos ficassem sujos com a terra que se acumulava no fundo do pote por entre trevos de três folhas, era como uma gruta das lendas de onde até poderia sair um dragão a uivar e a sibilar. Mas quando o Mário tinha sete anos os pais mudaram-se para Lisboa. Longe ficaram as noites à lareira com os avós, estendendo-se os abraços por natais irregulares porque, diziam os pais, a viagem era longa. Longe ficou também a sua companheira de brincadeiras, a Amélia, tão loirinha como uma boneca, que na véspera da partida lhe ofereceu a sua libelinha mais bonita, para que por ela lhe mandasse cartas a contar das novas brincadeiras e das aventuras na escola. O Mário nunca escreveu. Ainda estava a aprender as letras e achava que não ia escrever de forma bonita todas as coisas que o assaltam, todas as suas perguntas e todas as suas descobertas.

Longe ficaram os anos, porque a vida é um sopro, e esse primeiro amor de que não reza a história. O Mário aprendeu um ofício, casou, e teve duas lindas meninas loirinhas e traquinas.

Num desses natais, o Mário foi visitar os avós. A família reunida, a avó velhinha de bengala e xaile preto, a mãe de roda do fogão a lenha e aquele calor tão presente que é estar num tempo que nos traz tantas memórias.

O pote ainda lá estava, bojudo, a transbordar de trevos todos de três folhas, três corações verdes numa dança em que a vida não tinha ainda acontecido.

Dentro do pote tinha guardado tudo aquilo que era importante para si, os assaltos ao castelo, as quedas do muro da vizinha, o seu primeiro amor. Só nunca olhara verdadeiramente os trevos, esses pequeninos corações verdes a transbordar de orvalho que lhe lembravam todo o amor da sua família.

O avô veio à porta:

- Já te contei a estória da moira do poço da vila?

O avô já tinha contado, mas essa herança havia de passar, ao menos, para as suas filhas, ainda que um dia se esquecesse. O Mário sentou-se, criança outra vez, sem rugas nem cabelos brancos na alma, a ouvir a voz cava do avô:

- Dizem os antigos, que antes de ser fundada a vila, havia no monte um poço a que chamavam o poço dos pastores…

Ana Brilha

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