A sério? Isto foi nos anos 90? By Ricardo Dinis


Música. É impossível viver sem ela, pelo menos para mim. Do blues ao metal, do bossa nova ao rock, ela alimenta-nos a alma. Estou num café da baixa do Porto, o BOP. É confortável e acolhedor. As paredes e o balcão de madeira ajudam. Os inúmeros discos de vinil nas prateleiras atrás do balcão dão um ar vintage. No ar respira-se um ambiente hipster. Há um grupo de raparigas, que discutem trivialidades femininas, ao bom estilo da série americana: “ O sexo e a cidade”. Há um casal de lésbicas apaixonadas, estudantes de medicina com ar snob e alguns artistas. Pelo menos parecem, pelo ar indie, cabelos desleixados, barbas compridas e roupas que parecem retiradas do baú do avô.

A música é boa e embala-me a escrita. Lembro-me de quando comprar música era um prazer. Ansiava pela saída daquele álbum das “minhas bandas” ou daquela coletânea de natal, com as músicas da moda. As lojas de música eram um “must”. Era capaz de passar um bom par de horas a vasculhar os cds, deslizando os dedos pelos separadores por ordem alfabética, até encontrar as minhas bandas preferidas. Tínhamos um delicioso poder na ponta dos dedos. O brilho nos olhos aumentava, quando encontrávamos o que queríamos e ficávamos a observar a capa dos discos e as músicas que o compunham na contracapa. Adorava a separação nas lojas pelo tipo de música e a possibilidade de ouvirmos nos auscultadores os cds mais hot do momento. 

Lembro-me de ouvir nas longas viagens para o Algarve, a cassete do N.1, coletânea mítica dos anos 90, no Renault 5 dos meus pais. Constava sempre dos meus pedidos de natal e era sempre um regalo abrir aquele embrulho, mesmo já sabendo o que lá estava dentro. O mundo pop, rock e de dança estava todo ali à mão de semear! Uma das mais carismáticas dessas coletâneas foi sem dúvida a de 1995, um duplo cd, com a emblemática mascote da 7up, o Fido Dido na capa. Impossível que temas com o de Vangelis, “The Conquest of Paradise”; de Laura Pausine, “Non C´é”; Roxette, “Vulnerable”; La Bouche, “Be my lover”; Scatman Jonh, “Scatman”; Black Company, “Nadar”, Rednex, “Cotton-Eye Joe”; ou os Oasis, com “Whatever”, só para citar alguns, nos deixassem indiferentes naquela altura. Olhando para trás, a qualidade musical era bastante duvidosa, a roçar em alguns casos a mediocridade e hoje em dia alvo de risota entre amigos. Exemplos bem ilustrativos são os de hits, como o “Scatman” ou o “Cotton-Eye Joe”. A verdade é que fosse em casa, no intervalo do liceu ou nas primeiras saídas à noite, aquelas músicas enchiam-nos as medidas.

Era comum a música ser um dos principais presentes nos anos 90. Entre família ou amigos, o cheque disco, para que o destinatário comprasse o seu cd preferido, era um clássico. A música aproximava as pessoas. Era um produto palpável. Preenchia longas conversas de café. Havia uma indústria musical muito forte, com editoras a faturarem milhões, com os discos mais vendidos. Lembro-me de o álbum “Dookie” dos Green Day, como tantos outros, ter vendido cerca de 30 milhões de cópias e ter estado semanas a fio nos tops americano e europeu. Nos dias de hoje, todos ouvimos música através do itunes, spotify, youtube, etc. Ela continua a fazer parte das nossas vidas. É muito rápido o acesso em segundos a qualquer tema, mas o prazer de ouvir um álbum do início ao fim, de tocar num cd ou num vinil, ou de apreciar a ilustração de uma capa perdeu-se completamente…

É verdade as coisas eram assim nos ano 90 e não foi há assim tanto tempo!

Ricardo Dinis

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