A sério? Isto foi nos anos 90? - by Ricardo Dinis


FIL, Salão automóvel 2015. Estou com o meu projeto de street food, Road Tripas. As vendas estão calmas, poucos clientes, a mente viaja, divaga perdida entre carros top de gama, outros nem tanto, selfies com os melhores modelos para mostrar aos amigos, promotoras bonitas em saltos altos a pousar ao lado das máquinas. Parece um mundo de fantasia, parece-me que a maior parte das pessoas não está realmente interessada em comprar, mas apenas ver, ver e sonhar com o veículo que gostavam um dia de ter se ganhassem o euromilhões. As melhores marcas estão cá, entre Ferraris, Maseratis e Porsches, a vista distrai-se com algo muito maior que um mero carro, aquilo representa status e acima de tudo poder, acho que é isso que alguém ambiciona quando quer um carro com tantos zeros à frente no preço…

Entre algumas buzinadelas e transeuntes que passam, aparece uma menina que diz ser muita fã de tripas de Aveiro e principalmente de Nutella! Disponibiliza-se de imediato a tirar uma foto à tão almejada tripa para colocar no facebook. Acedo com bastante agrado, pois no fundo estou a obter publicidade gratuita. Após tirada a foto, com vários ajustes e ângulos à procura da luz perfeita, a referida beldade, que me diz ser bailarina e estar a fazer um “trabalho” de promoção para a Citroen, diz que vai colocar uns emojis no post e pergunta se tenho insta!! Aquilo acertou-me como um livre direto do Ronaldo, eu que era o guarda-redes à procura da bola… Depois de decifrar o que para mim era holandês, percebi que emojis são uns bonecos e símbolos que se colocam através do smartphone no facebook e que insta, é o instagram, a famosa rede social de fotos. Curioso explorei os ditos emojis e percebi que são amplamente usados pelas novas gerações para comunicar. Eu sou do tempo do mirc, o chat em que falávamos pela internet e já aí se usavam diminutivos, como o clássico ddtc (de onde teclas) e outros que tais, mas agora apercebo-me que os “miúdos” comunicam por símbolos, já nem se dão ao trabalho sequer de escrever e pior que isso falam como escrevem, ou seja, cheios de siglas, calões, metáforas e comparações de linguagem cibernética que só eles conhecem e me deixam a mim, um homem que nasceu nos anos 80 e viveu grande parte da sua juventude nos anos 90, completamente às aranhas… 

Pior do que maltratar a nossa bela língua portuguesa, acho que é sinónimo de preguiça mental, sinal dos tempos em que queremos fazer tudo demasiado rápido e sem pensar muito. Descobri também, com um jovem de 1995 (meu deus como estou velho!), que fazer “jajões” é, na linguagem dele: “espetar mentiras, inventar tretas”, tudo isto inspirado num hit da música de kizomba, “era só jajão”, precisamente com o mesmo significado.

Sem querer parecer muito saudosista ou antiquado, acho que a comunicação era bem mais rica quando falávamos com palavras reais, daquelas que vêm nos dicionários e têm significados intrínsecos, em vez de o fazermos através de bonecos, macaquinhos, bolinhos, sapatos e trinta por uma linha…

É verdade as coisas eram assim nos ano 90 e não foi há assim tanto tempo!

Ricardo Dinis

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