A Sério? Isto foi nos anos 90? - by Ricardo Dinis


Ainda ontem revia a parte final do “Antes do Amanhecer”, do Richard Linklater, com os extraordinários desempenhos do Ethan Hawke e da Julie Delpy. Decorria o ano de 1995 e aquele casal que se havia conhecido nesse mesmo dia, tendo-se enamorado em menos de 24 horas, deparava-se com uma despedida que poderia mudar as suas vidas para sempre. Optaram por marcar um encontro daí a 6 meses, na mesma estação de comboios em Viena. Assim nasceu uma das trilogias mais fascinantes das últimas décadas do cinema, com uma história de amor que nos toca de certeza a todos, seja pelo seu enorme realismo ou pela espontaneidade inebriante dos seus intérpretes.

Será que nos dias de hoje isto seria possível? Primeiro com o e-mail, depois com as redes sociais e com as inúmeras aplicações de chats, é verdade que a comunicação ficou muito mais facilitada, mas ao mesmo tempo perdeu muito do seu encanto natural, como seja combinar um encontro, seja amoroso ou não, com outra pessoa. Perde-se aquela ansiedade positiva do reencontro, a criação de expectativas naturais sobre o outro, a imaginação, a memória, tudo perde intensidade e se desvanece num mundo atual, onde tudo é demasiado rápido e imediato.

Atualmente e impulsionados pela maior rede social do mundo, o facebook, que nasceu já no longínquo ano de 2004, todas as relações e a forma como as encaramos mudaram, é fácil marcar ou desmarcar algo, em segundos teclamos uma mensagem, que o nosso destinatário, sempre ligado ao wi fi ou 3G, vê num curtíssimo espaço de tempo. Até esta rapidez por vezes me aborrece! Antigamente era suposto pensarmos, esperarmos pelo momento certo, todos esses timings alimentavam as relações entre as pessoas, como se comêssemos um demorado almoço em família de 3 pratos, quando agora devoramos um big mac em 3 tempos!

Será que o Jesse (E. Hawke) e a Céline (J. Delpy) se teriam voltado a reencontrar se se tivessem conhecido na era facebook? Será que trocariam mensagens calorosas desalmadamente durante uns dias, se conheciam demasiado depressa, se fartavam um do outro demasiado depressa e a paixão esvanecia-se e entre os dedos que teclam o ecrã de um smartphone?

Pode ser uma perspetiva demasiado romântica, mas acredito que as redes sociais e o imediatismo da internet torna as relações mais frágeis, simplesmente porque é tudo mais fácil e mais rápido e nós os seres humanos, nem que seja no mais íntimo do nosso ser, gostamos de desafios, de algo que nos leve a correr riscos, do desconhecido, do misterioso que existe no armário escondido das nossas almas e o imediatismo do contacto dos nossos dias faz com que esse gasóleo se acabe demasiado rápido… Tenho saudades dos anos 90. Tenho saudades de combinar algo com alguém através de um telefone que demora 30 segundos a discar os números e os dedos deslizam em círculos perfeitos até ouvir o primeiro sinal de chamada. Tenho saudades dessa adrenalina, do compromisso que não podíamos falhar, pois não haveria forma de o desmarcar. Tenho saudades de relações mais reais e mais autênticas, em que somos muito mais do que um perfil criado por nós num qualquer sítio da internet, onde podemos ser sempre quem quisermos.

É verdade, as coisas eram assim nos anos 90 e não foi há assim tanto tempo!

Ricardo Dinis

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