Crónicas da Brilha



As aves de rapina

Que desilusão, meu irmão, quando te alimentas de escândalos em vez de alçares aos céus as asas com que nasceste. Quando o pão de cada dia basta para te embrutecer o espírito e te espojas na desgraça alheia.

A morte não tem graça, o desespero, um grito de ajuda, não é alvo de chacota.

Não há bem mais sagrado ou misterioso do que a vida, que nasce de uma conjuntura que escapa ao nosso controlo e se mantém por caminhos enigmáticos. Um ser que vive é todo um microcosmos de emoções complexas e inadiáveis, insondáveis até para os seus criadores.

Essa centelha que nos transcende de barro em catedral, de poeira passageira em perene memória e faz poesia dos passos no caminho.

O que nos distingue, uns e outros, é esse estender de asas para o alto, essa vontade de transcender a mesquinhez do quotidiano sem profundidade, Ser, em cada bater do coração, um fio de sentido nisto tudo e fazer com que valha a pena.

Tem – e digo-o com alegria – ainda tem 23 anos. No fim desta noite, a família vai abrir-lhe os braços e chorar de alegria e tristeza por o ter regressado da guerra mas também por não ter percebido esse grito, esse espantoso grito de solidão e desespero que nos merece todo o respeito.

Vai haver um amanhã para ti, uma nova oportunidade de rires, de amares, de ir à luta, caíres e ergueres-te as vezes que forem precisas e, no fim, tudo ter valido a pena.

Somos frágeis, imensamente frágeis, vidro cristalino tecido pelos deuses.

É assim tão difícil olhar o outro lado? Perceber que dar a mão não é o mesmo que ironizar como hienas passivas?

A vida passa-vos, oh mentes pequenas, mas a semente que o vento semeia em vós é nenhuma. Não falam a língua do tempo, não são capazes de um gesto de compaixão desinteressada.

Para mim basta-me esta certeza: para ti, meu irmão, há uma amanhã. E esse amanhã traz em si a semente de toda a esperança.

Ana Brilha

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