"Histórias Infanto Juvenis da Tradição Africana" por Carlos Duarte



A Boca e a Mão

Antigamente, quando o mundo foi criado, a Boca só falava e comia, era invejosa e ficava com toda a comida, e não dava nada a ninguém.

Começaram assim os atritos com a Mão. Discutiram várias vezes e acabaram ficando com raiva uma da outra.

Quando se aproximou a estação das chuvas, a Mão construiu uma cubata bem sólida e bem vedada, e assim que terminou, guardou nela todos os seus mantimentos, mas não os da Boca.

Com muitos mantimentos guardados, a Mão conseguiu trocar uma parte deles por uma boa quantidade de bois, que colocou no pasto, e depois plantou mandioca e semeou milho, que com boa chuva, cresceu depressa e bonito.

A Boca, que só sabia falar, só conseguiu fazer amizade com um cachorro que passou a fazer-lhe companhia e tanto se dedicou a ela que caçava e lhe trazia sempre comida.

Entretanto, passaram pela cubata uns leões de uma mesma família e comeram a maior parte dos bois que eram da Mão. Depois passaram uns macacos , um grupo bem grande, que alem de comer a maior parte do milho e da mandioca que a Mão havia plantado, quebrou quase todos os pés de milho e mandioca que haviam sobrado, deixando a Mão praticamente na miséria.

A Mão então, quase no desespero, foi falar com a Boca, a quem pediu o cachorro emprestado para ajudar a guardar os bois que restaram e tomar conta de um restinho de plantação de milho e mandioca, evitando que os predadores se aproximassem, com os seus latidos.

A Boca argumentou que o cachorro era a única coisa que tinha na vida e que era muito valioso, pois além da companhia que lhe fazia, ainda caçava para ela e lhe trazia comida.

Mas a Mão insistiu muito no pedido, e então a Boca acabou concordando com a condição de que, se alguma coisa acontecesse ao cachorro, a Mão daria tudo o que tinha, e ainda por cima ficaria escrava dela.

A Mão, sem outra alternativa, acabou por concordar com essas exigências para poder ter o empréstimo.

Porém, a maré de azar ainda não tinha terminado, e enquanto cuidava dos bois na pastagem, o cachorro foi atacado por hienas e morreu.

Então, como combinado, a Mão para pagar o prejuízo causado à Boca, entregou-lhe o pouco que sobrou de tudo que tivera, e ficou para sempre escrava da Boca.

Carlos Duarte
(esta crónica é escrita em português do Brasil)

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