A Praia da Parede, ontem e hoje


Os fotojornalistas José Carlos Carvalho e Rodrigo Cabrita fotografaram a Praia da Parede e os seus visitantes. Entre as fotos a preto e branco de José Carlos e as fotos coloridas de Rodrigo existe um intervalo de 12 anos. Não são as mesmas pessoas, mas é o mesmo iodo que faz bem às maleitas, é a mesma alegria de uma manhã de praia, é mesma crença...



"A velhice está reservada a todos"

O sol da manhã tem ondas curtas e o da tarde tem raios violeta, mas o melhor de tudo é «o IODO,  porque é bom para os ossos»
É mesmo assim: As pessoas que escolhiam este recanto rochoso na Parede para passar o verão não iam a procura de areia nem de águas quentes nem de Nadadores Salvadores jeitosos nem biquínis pequeninos. Querem curar doenças, essa é que é  essa.

José Carlos Carvalho
Praia da Parede, Junho 2001




"Semana de Praia para idosos"

A hora da partida está prevista para as 8h da manhã mas há quem não aguente e chegue uma hora antes, quando os primeiros raios de luz trazem mais um dia do resto das suas vidas. A euforia é grande de mais e difícil de controlar. Como nas crianças. São-­no em parte, pelo menos na alma, mesmo que no corpo carreguem rugas e cabelos brancos, amigos inseparáveis de uma viagem que já vai longa. Hoje começa a semana que tantos moradores da freguesia de São Vicente de Fora anseiam: sete dias de praia, sol e mar. As vagas são poucas e, como em tantas outras coisas na vida, também é preciso ter sorte para garantir um lugar na viagem, a baixo custo, até à praia da Parede, arredores de Lisboa.

Naquela mão cheia de gente, que traz a bolsa cheia com a toalha, o lanche, a bebida e o protetor solar, ninguém tem menos de 55 anos. A maioria está reformada. A ida à praia tem sabor de bilhete de lotaria premiado – muitos não têm meios próprios para chegar junto do mar, outros não têm sequer condições físicas para se aventurem sozinhos numa travessia na areia quente. Precisam de outras mãos e de outras pernas, uma espécie de muletas humanas, para chegarem ao sítio onde irão viver momentos únicos que já não acreditavam ser possíveis. Enquanto o sol brilha e os ossos aquecem, esquecem­-se as reformas baixas. Não há corte anunciado por governo algum do mundo que torne o mar menos salgado ou que faça a argila esfoliar menos a pele. E assim se combate a solidão dos outros 300 e tal dias do ano. E assim se criam novas amizades e se fica a conhecer melhor os vizinhos de freguesia.

Ao meio-dia, quando o sol está mesmo por cima das cabeças grisalhas, protegidas por bonés coloridos, está na hora de voltar à cidade. Aquele pedaço de manhã soube a tanto. O iodo tirou da memória as maleitas dos ossos, o verde das algas fez de tapete para exercícios físicos, as pequenas poças por entre as rochas foram as melhores piscinas de sempre. E o céu azul também ajudou a manta de tricot a crescer mais uns centímetros. As horas passam, a alegria também. É tempo de regressar. Secar e ir embora. Foi assim todos os dias da semana. Para o ano há mais. Para aqueles que cá ficarem.

Rodrigo Cabrita 
(2013)


Estas fotografias retratam a procura pelo bem estar do corpo e da alma e estão patentes no Restaurante Maria Laranja, até 19 de outubro. 

Rosarinho

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