"Histórias Infanto Juvenis da Tradição Africana" por Carlos Duarte


N’Zambi e a metamorfose das cabaças



Havia numa aldeia Tchokué, uma mulher que, cada vez que engravidava, em vez de parir uma criança, paria uma cabaça. 

A mulher, envergonhada por não conseguir dar à luz a uma criança, cada vez que isso acontecia, ia enterrar a cabaça debaixo de um imbondeiro que ficava afastado da aldeia.


Quando, pela sexta vez o destino lhe reservou a mesma sorte, a mulher desgostosa e certa de aquilo ser resultado de um feitiço que alguém lhe havia feito, migrou para outra aldeia, para ver se assim se via livre da maldição.

Certo dia, uma velha ermitã que andava pelo mato à procura de raízes e ervas medicinais, encontrou as cabaças; pensando vir a utilizá-las mais tarde, levou-as para a cubata e guardou-as.


No dia seguinte, quando a velha chegou a casa depois da habitual saída em busca de raízes, folhas e ervas, mal acreditou no que viu: a casa estava limpa e arrumada, e no lugar das cabaças havia muitas panelas com muita comida. 
A velha admirou-se com a dádiva, cuja proveniência ela nem suspeitava, mas logo parou de pensar no assunto.

E o fenômeno foi-se repetindo regularmente, a ponto de se tornar rotina; a velha saía e quando retornava tinha a casa limpa e arrumada e mais provisões do que ela jamais conseguiria consumir sozinha.


Um dia, um caçador que passou pela casa da velha, conhecedor dos hábitos eremitas da anciã, admirou-se de ver à porta da casa desta, três garbosos rapazes e três lindas moças que, com o maior zelo limpavam o terreiro e preparavam as mais apetitosas comidas.

Como pouco depois encontrasse a velha no mato, perguntou-lhe, se por acaso, os jovens que tinha como visitas, eram seus netos. 
A velha, sem saber do que se tratava, negou que tivesse qualquer visita, e, como a sombra do Mussôlo, estava convidativa para um descanso, e estavam sem pressa, contou ao caçador os estranhos fatos que vinham ocorrendo em sua casa, desde que encontrara as cabaças no mato.
O caçador, achando que a velha estava doida, não pensou mais na história, mas à noite, na Tchiota, contou o que vira na casa da velha e o que esta lhe contara pouco depois no mato. 
Por coincidência, um dos homens que estava na Tchiota, era agora casado com a mulher que tinha parido as cabaças, e contou-lhe a história que acabara de escutar.
Ela, sabedora de tudo, decidiu ir à casa da velha, reclamar aqueles frutos que, por obra de N’Zambi se tinham transformado nos filhos que ela tanto desejara.

Os filhos é que não se conformaram; depois de terem admoestado a mãe pela vergonha que tivera deles quando ainda eram cabaças, apesar de seus filhos, renegaram-na em favor da velha que os recolheu e guardou.


Carlos Duarte
(esta crónica é escrita em português do Brasil)

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