Crónicas da Brilha


O ritual e a falta de chá

Confesso: Conheci o Mefistófeles! É uma daquelas pessoas com quem nos cruzamos na rua ou no trabalho e que usam máscara colada à alma. Conheci-o há dias e, do alto dos seus cinquenta e tal anos, não sabe o que é uma régua, nem uma balança e dispara subjetividades em todas as direções. Podia ter menos anos, podia ser mulher, mas este era assim. Há outros que terão outro pacote…

Invariavelmente são estas mesmas pessoas que dão todo um outro universo á palavra egocentrismo. Se lhes for dado um cargo, revelam-se e a ditadura surge: crua, arbitrária, real.

Contra esses, os das máscaras, o que pode a Lei e os seus rituais?

Já senti, muitas vezes, dúvidas na justiça. Não a balança que pesa a nossa consciência mas a justiça dos Homens, frágil como eles, limitada ao dom da evidência de outros Homens, também eles falíveis.

Poderá, um dia, a justiça ser perfeita? Poderá proteger-nos desses que andam trilhando o caminho dos outros e pondo pedras e defeitos em toda a parte?

Também nós cumprimos o nosso caminho, mas ele leva tempo, implica determinação, perseverança, paciência e, de quando em vez, um salto de fé.

E se eu não ensinar os outros a ver? E se não conseguir apontar a injustiça?

Mesmo com limites, cumpre-nos a nós que esses tirem a máscara, sermos firmes no juramento de defender a toga e o que ela representa, de erguer a balança e não deixar a Justiça sentada ao frio sem cruzar a soleira da sua casa.

Esses, os das máscaras, não compreenderão nunca a verdadeira beleza por detrás de um abraço sincero, o aroma que se desprende de uma chávena de chá partilhada quando, lá fora, um roçagar de asas anuncia a primavera.

Ana Brilha

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