Crónicas da Brilha


O agitar das águas

Confesso. Estava conformada. Como dizia o poeta, queriam-me fútil e eu fui-me deixando arrastar para esse marasmo de águas paradas e dolentes que anestesiam até a alma.

Então, algo se deu. Plantou-se a semente do questionamento, não da dúvida, mas o reinstalar da capacidade de aprender, de me mover em frente, sob o signo da criatividade.

Vou no autocarro e vejo as árvores passar num entardecer de outubro, mas já não são só árvores, são muitas outras coisas e as nuvens existem pela sua beleza intrínseca mas nunca estão estáticas.

Assim é a vida, sempre em movimento, mesmo quando germina e parece, aos nossos olhos, suspensa e inerte.

Noutro lugar qualquer, em breve, há de nevar, e talvez a minha compreensão das coisas fosse diferente se nevasse. Mas nunca neva e a minha compreensão do inverno é fria e molhada.

Estou sentada mas não quieta, os pensamentos voltejam como aves em torno do caminho das estações.

Os muros de betão não são capazes de afastar o ser humano da sua natureza, do seu entendimento dela. E a filosofia escorre pelos vidros da janela e o presente é fugaz para tantas ideias que só desde então podem mudar o mundo.

Ouço a chave na porta, levanto-me e deixo cair as imagens porque a vida chama mas, no papel, fica a memória do instante, que nunca mais se perderá.

Ana Brilha

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