Crónicas da Brilha



Os meus seres vivos

Com 10 anos plantei uma semente que nunca nasceu. Com 16, na escola, plantámos uma árvore no jardim das traseiras de um pavilhão que, suspeito, lança ainda os seus braços sobre as cabeças dos alunos que por hoje lá andam.

Mais tarde, tentei salvar um pardal de telhado das mandíbulas de um gato, tentei manter viva uma ninhada de pequenos coelhos pardos, alimentei uma rola que caiu do ninho…

Nem sempre consegui manter este ténue fio silencioso da vida, falhei muitas vezes, sofri muitas vezes, a sensação de impotência perante o que não se pode mudar.

Assumi tantas responsabilidades… pela semente que não plantei mas cresce viçosa em alegria e descoberta, pela flor que abre as pétalas ao sol pela primeira vez, pelas 8 patas que se passeiam pelo corredor em desabrida cavalgada, por aquela árvore que teima em crescer apenas milimetricamente num parque de estacionamento em Sintra.

Estes são os meus seres vivos, aqueles que jurei proteger, acarinhar e manter enquanto a sua natureza o permitir.

Para que, como eu, vê a vida como algo de sagrado, é uma responsabilidade imensa trazer todas estas vidas comigo, as que que salvei e as que não consegui salvar, as que toquei e as que não consegui tocar.

Ao fim de todo este tempo, ainda chego a casa para abrir os braços, receber e ser recebida com amor, com a sincera alegria do reencontro. Não há bem material algum que nos preencha tanto como ser acordada às 6h da manhã por uma lambidela na bochecha, como chegar tarde e cansada a casa e ainda dar colo a um caprichoso bebé de 4 patas que persiste em destruir quase tudo com os seus disparates.

É estranho como a capacidade de Amar transcende as espécies, por isso devemos relembrar que nos cabe a nós o dever de proteger, acarinhar, nutrir os nossos irmãos mais frágeis. E a noção de família cresce e o sentido da vida amplia-se quando assumimos para nós mesmos estes deveres e procuramos cumpri-los escrupulosamente.

Eu tenho os meus seres vivos e eles têm-me a mim, sem posse mas com pertença, com a garantia de que enquanto vivermos teremos tanto para dar uns aos outros.

Ana Brilha

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