Abrigo Fundo, by Ricardo Caldeira


Os pingos de chuva fugiram, mas as gotas de chuva não!
Eram quatro vezes trinta e três mil, quinhentos e quarenta e três pingos de chuva, todos juntinhos nos braços de uma nuvem como se estivessem num autocarro cheio a caminho do trabalho.
- Chega-te para lá! - gritou um pingo de chuva para a gota azul ao seu lado.
- Não posso. - respondeu a gota azul quase sem se mexer.

- Isto está muito cheio de gotas e pingos de chuva. Não vês que não há espaço para todos? - disse a gota.

- Pois é, isto assim não pode continuar. - disse lá ao fundo outro pingo.

- Alguém tem de falar com esta nuvem para não entrar mais nenhum pingo e nenhuma gota de chuva.
Depois de tirarem à sorte, lá foi o pingo mais sorridente de todos os pingos, falar com a nuvem.
- Senhora nuvem! - gritou o pingo.- Senhora nuvem! - voltou ele a gritar, sem obter resposta. 
Cinco ou seis gritos depois, já quase a desistir da conversa com a nuvem, o pingo ouviu uma voz muito fininha.
- Que queres tu? - perguntou a nuvem.
- Passa-se alguma coisa? - indagou o pingo, preocupado com a voz da nuvem.

- Está tudo bem obrigado. O que queres tu? - voltou ela a perguntar.

- Está mesmo tudo bem? - insistiu o pingo.

- Oh pingo chato! - exclamou a nuvem num tom muito baixinho, quase sem se ouvir. Não vês que tenho de falar baixinho para conseguir segurar todos os pingos e todas as gotas de chuva nos meus braços. Se falar muito alto agito-me e depois caem pingos e gotas fora do sítio. Olha lá para baixo. - continuou a nuvem. Aquela areia toda é um deserto e nos desertos não se podem largar pingos ou gotas de chuva.

- Não? - perguntou o pingo.

- Claro que não. - disse baixinho a nuvem. Os desertos estão cheios de areia quente, ventos quentes e pedras ainda mais quentes. Se lá caírem pingos ou gotas de chuva, queimam-se mal toquem no chão quente do deserto.

-Ah! - exclamou o pingo de chuva, pouco convencido com as palavras da nuvem.

- Mas afinal o que é que tu queres? - voltou a perguntar a nuvem já meio inquieta com o pingo.

- Pois…eu vinha cá falar da falta de espaço - respingou o pingo.

- Falta de espaço?

- Sim. - continuou o pingo. Já não existe muito espaço livre dentro da senhora nuvem e nós já não nos conseguimos sequer espreguiçar pela manhã. E olhe que espreguiçar pela manhã é muito importante para o nosso crescimento. - concluiu o pingo.

-Não cabem mais pingos e gotas de chuva? Então quantos pingos e quantas gotas de chuva é que já cá estão? - perguntou a nuvem.

- Na nossa última contagem, disse o pingo, éramos quatro vezes trinta e três mil, quinhentos e quarenta e três pingos de chuva.

- E quantas gotas? - questionou a nuvem.

- Sabe senhora nuvem, as gotas de chuva não são como nós. Elas juntam-se todas, umas com as outras e depois é muito difícil contá-las. Não se consegue perceber onde começa e acaba cada gota. Mas olhando assim para elas, devem ser metade dos pingos, o que já dá uma multidão de pingos e gotas de chuva. Falta espaço! - gritou o pingo, concluindo o seu pedido à nuvem.

- Calma meu amigo. - disse-lhe a nuvem muito baixinho.
- Já fiz muitas viagens com o dobro dos pingos e o triplo das gotas de chuva que tu contaste até agora.
- Ai sim – suspirou o pingo muito desanimado.

- Sim – continuou a nuvem – mais seis dias e deixamos a areia quente do deserto, subimos uma montanha, descemos um vale de flores amarelas e chegamos a um campo imenso cheio de arroz bebé. Aí, largo as pingas e as gotas de chuva parta dar de beber ao arroz, que depois vai crescer grande e forte.

- Eu percebo, senhora nuvem – argumentou o pingo – mas nós não aguentamos esta viagem por mais seis dias.

- Conseguem – sorriu a nuvem – vão ver que conseguem.
E dito isto a nuvem encheu o peito para sugar do ar fresco mais gotas e pingos de chuva que caíram uns sobre os outros. Logo se instalou uma grande confusão com pingos e gotas de chuva à cotovelada entre si por um pedacinho de nuvem onde pudessem descansar os pés a pingar água. No meio da confusão o pingo sorridente soltou um grito:

- Oiçam todos! Tenho novidades. A nuvem disse que são mais seis dias de viagem e depois …
Agitados pingos e gotas nem deixaram o pingo sorridente acabar a frase:

- Seis dias! – gritaram.

- Quem é que aguenta este aperto por mais seis dias? – perguntou uma gota lá do fundo.

- Temos é de fugir – gritou uma gota pequenina.

- Fugir? – perguntaram logo as gotas em coro.

- Sim – respondeu a gota pequenina, toda contente.

- Boa ideia – disseram as outras gotas enquanto preparavam o plano para a fuga: uma distrai a nuvem e as outras escapam-se pelas mãos desta.

- Espera aí – gritou um grupo de pingos de chuva mais aventureiro. Se alguém vai fugir são os pingos, porque somos mais e mais fortes.


E assim foi. Por serem mais e mais fortes que a gotas de chuva, os pingos pegaram nos planos das gotas e como previsto distraíram a nuvem com uma barrigada de cócegas que a deixou a rir à gargalhada. Tal foi a confusão, que a nuvem nem viu que sobre a areia quente do deserte caíram quatro vezes trinta e três mil quinhentos e quarenta e três pingos de chuva felizes e contentes por deixarem o espaço apertado dos braços da nuvem.

Mas
 os gritos e os risos de alegria acabaram mal os pingos de chuva tocaram com os pés de água na areia quente do deserto e aos poucos queimaram os dedos, os pés, as mãos e em menos de nada, a poça de água que se formara na areia logo desapareceu debaixo do sol quente e forte do deserto.

A nuvem, essa, continuou o seu caminho, apanhando mais gotas de chuva nos seis dias do deserto à montanha, passando pelo vale das flores amarelas, até chegar já cansada ao campo de arroz bebé. Aí repousando da longa viagem e do colo que deu a tantas gotas de chuva, a nuvem abriu os braços, largando docemente sobre o arroz bebé todas as gotas que conseguiu apanhar pelo caminho desde a fuga dos pingos de chuva.


Quando chegaram ao chão, junto do arroz bebé, as gotas de chuva deram de beber, lavaram e aconchegaram o arroz bebé que assim cresceu grande e forte. Depois, todas juntas, as gotas de chuva seguiram por um rio calmo passando um campo imenso de rãs e malmequeres. Vão descansadas da vida à conversa umas com as outras e à espera de uma outra nuvem que as apanhe novamente.


Ricardo Caldeira

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