Abrigo Fundo, by Ricardo Caldeira



Por amor da Santa
(2ª Parte) 
Para lerem ou relerem a primeira parte acedam aqui


- O que queres de mim? Soluçou já com uma lágrima a trair a maquilhagem.

- Calma meu doce, disse-lhe ele limpando a gota de água que teimava em trair o contorno do olho.

- Quero apenas a tal conversa à beira de um café. Mas se não te apetecer o café pode ser um gelado, um pastel de nata, uma sopa quem sabe…

Sara não tardou a desmanchar um sorriso e pediu-lhe que aguardasse enquanto se vestia. Depois, sem medos, sem perguntas foi com Ruben       para o elevador em direção ao bar do hotel. Que por ser Inverno se encontrava tímido, apenas com 3 casais a desafiar os raios de sol que inundam a esplanada sobranceira à piscina.

- Espanhóis disse ele, andam fascinados connosco.

Não perdem uma oportunidade para nos visitar. Antes era só na Páscoa, mas agora andam sempre por aqui como se isto se tratasse de um plano secreto para uma invasão pacífica. Ela sorriu e ele em tom de brincadeira lá continuou com a teoria.

- Pois nós vamo-nos rindo mas eles vão chegando e vão ficando e quando nós dermos por ela, já são eles mais do que nós.

A conversa dos Espanhóis sentara os dois numa mesa calma onde as palavras teimavam em ser doces e seguras, ocupando rapidamente a meia hora do resto do tempo que lhes sobrava. Desta vez foi Ruben que o notou e levantou-se pronto a despedir-se de Sara com um firme aperto de mão, fixando-lhe o olhar.

- Então até à próxima. Disse sem esperar resposta. Sara ainda meio perdida, respondeu que sim num Até à próxima inseguro enquanto se deixou ficar sozinha a saborear a esplanada fria de Janeiro.

Depois dessa manhã o tempo deixou de ser o mesmo. Ficou parado naquela hora terna de conversa e não queria mais avançar para os encontros da Agência. Aí o tempo estava num triste andamento de que o corpo de Sara se queria desligar. Nessa hora de gemidos roucos a que se entregavam os clientes, Sara fazia de morta agarrando-se à memória desvanecida daquele encontro de Janeiro.

Com o passar das noites mal dormidas a sonhar com Ruben, a rapariga desatava sempre num choro desmedido, quando as lágrimas lhe invadiam o espírito na dificuldade de relembrar os traços de quem lhe devolvera um sorriso. Dois anos após esse dia, Sara agora com trinta de compostura, já pouco lhe restava de Ruben, daquela hora e das palavras que trocaram. O mais que a ofendia não era o Ruben, era tão só o sonho roubado que construíra nas palavras de um desconhecido, que lhe oferecera um olhar calmo num café à beira de uma piscina de hotel. O mesmo hotel povoado dos muitos quartos em que já se deitara a troco da renda, da roupa, da despensa cheia do indispensável e dos chocolates com amêndoa que eram a sua maior perdição.

E naquela manhã, sem sentir sequer o toque do colchão, abriu-se a tal passagem a fugir do caminho torto que lhe traçara a Agência.

Mas a passagem lá estava ainda por atravessar. E se antes da passagem a dor era imensa, agora a dor crescera e tornara-se impossível na ausência de Ruben. Depois, chegou o inevitável, o destino há muito traçado, confrontando Sara com menos encontros.

Seletiva, a Agência mantém em carteira clientes ávidos de juventude. E no negócio do prazer a barreira dos trinta comporta uma fatalidade. Um corpo ainda rijo de formas e saudável no toque mas rodado, visivelmente já muito amassado a que se atiram apenas os clientes menos abonados, incapazes de pagar pela juventude das formas e pelos gemidos ainda por controlar nas investidas mais selvagens ávidas de poder. Sara já não geme, entrega-se apenas e balança o corpo ao andor da procissão que sabe ela passar num sopro desde que entra da porta, passa ao corpo e corre à porta novamente.

Por isso o tempo, agora, já com menos encontros passa-o a ler. Aproveita o sol quente da primavera e suga nas palavras a paisagem e a chuva da vida que lhe passou ao lado. Não desgosta deste tempo que sobra em sossego e encontro consigo mas que falta em salário. Por outro lado, o preço da Agência disparou para os trinta por cento, em dobro da comissão inicial pela dificuldade crescente em agendar encontros.

Sara sabe, que Rita já passou pelo mesmo, ser esta a estratégia final da Agência, que aos poucos e por sua vontade acabará por descartar Sara para uma segunda liga na profissão. Em que os agendamentos são por conta própria e obrigarão Sara, como já o fez Rita, a encontrar abrigo nas incertezas de um chulo, que quase sempre agride, rouba e por vezes usa violentamente o sexo como arma de pressão, de medo e de subjugação eterna. Sara sabe-o bem e a cada semana o número de encontros agendados pela Agência marca passo apressado para esta reclassificação. Será para breve, pressente-o já com a mesma certeza com que fechou a história com Ruben.

Por isso cada novo encontro à conta de dois por semana é nova humilhação. A última, a braços com um cliente agressivo levou-a à urgência de um hospital para estancar o nariz, que a alma, essa, há muito que não tem remédio possível.

- Por amor da Santa! O que é que lhe aconteceu? Disse indignada a bata branca que entrara na sala de observação. Sara esboçou um sorriso enquanto a médica lhe observava atenta, os ferimentos.

- Dói? Sente a pressão dos meus dedos? Retorquiu um par de olhos azuis já de meia-idade.

- Não. Respondeu Sara. O problema é o meu nariz que não pára de sangrar.

- Sabes, disse a médica enquanto preparava os instrumentos da intervenção, és uma mulher muito bonita. Até a sangrar do nariz se notam os traços firmes que nos prendem o olhar.

- É, talvez seja essa a minha perdição, respondeu Sara passando a mão pelos ferimentos que lhe confirmam a sina.

- As coisas que nos alegram o olhar são sempre de contemplação e nunca de perdição, avançou a médica, enquanto lhe estancava o sangue com uma compressa. Chamo-me Teresa. E tu? Questionou ela.

- Sara, respondeu meio embargada pelo cheiro embebido na compressa.

No tempo que demorou a limpar, estancar e desinfetar o nariz a Sara, Teresa arrancou-lhe mais um sorriso e a promessa de que ia cuidar de pôr gelo e tomar o analgésico que lhe ia passar. Depois chamou um enfermeiro para acompanhar Sara à radiografia apenas para confirmar que não havia fratura.

Ao entrar, Ruben cumprimenta a Dr.ª Teresa e dirige-se à paciente para como solicitado a acompanhar à radiografia. Sara está de cabeça levantada a segurar a compressa e não cruza o olhar com Ruben que também não reconhece em Sara a rapariga do quarto de hotel. Possivelmente pela magreza de Sara, pelas roupas ou pela luz do hospital. De braço dado seguem amparados no acaso em direção ao piso inferior. No elevador, Ruben inicia um protocolo para minimizar o ambiente frio do hospital.

- Então já se sente melhor? Questionou ele sem resposta de Sara. Sem perder o entusiasmo o enfermeiro volta à carga, confirmando as palavras da médica.

- Agora vamos tirar um raio X só para termos a certeza de que está tudo bem, depois vai logo para casa. Vai ver que não tarda nada já está na sua cama a descansar. Olhe, está com mais sorte do que eu que ainda vou ter de ficar por aqui mais um par de horas.

Com a chegada ao piso menos dois o para o elevador e  também o protocolo de Ruben, saindo ambos para novo destino. Sara fica então entregue ao radiologista e Ruben sobe ao piso três já acompanhado pela Sr.ª Manuela, agachada nos seus setenta e oito anos.

- Então já se sente melhor? Iniciou ele.

Sara ficou no corredor à espera de ser chamada e quando entrou não pôde deixar se sorrir. O homem por detrás do avental de chumbo não conteve a curiosidade e perguntou-lhe o que a fazia sorri. Sara pediu desculpas e logo atirou.

- Sabe como é que um radiologista faz amor?

- Não. Disse ele aguardando a piada.

- Quieta, não respira, já está! Disse Sara soltando uma gargalhada.

- A minha mulher vai adorar esta, respondeu o radiologista, posicionando Sara junto à máquina do disparo.

- Chamo-me Carlos, disse o homem, enquanto pedia à Sara que não se mexesse.

O resto já nós sabemos. O nariz não estava partido e Sara seguiu para casa, para os passos certeiros que o destino lhe traçara.

Ruben continua no hospital e sempre que pode, compra uma hora na Agência e no encontro com a jovem que lhe sai em rifa, convida para café, lançando em conversa suave as palavras que sabe de cor. Aperfeiçoou-as vezes sem conta e sempre com sucesso. No seu currículo soma já sete mortes, sem abuso, sem sexo, sem agressão. A polícia perdida no insólito dos crimes, não tem pistas e diz tratarem-se de casos isolados, que objetivamente, não estão relacionados entre si.

Aos trinta e dois anos, exatamente três dias depois de passar à segunda liga e sem se entregar aos desígnios de um chulo, Sara reservou o trezentos e doze do hotel, onde quatro anos antes, se encontrara pela primeira vez com Ruben. Desse quinto andar sobre a cidade, saltou sorrindo, atravessando de uma vez só a passagem que sempre lhe fugira. Para trás ficaram as coisas boas e sobretudo as coisas más. Ficou também Ruben, a melhor recordação a que a jovem se entregou no segundo final daquele salto.

Ruben continua na sedução mortal dos seus encontros e nos remorsos das vidas que vai ceifando, fica-lhe em moralizada penitência, o sorriso terno de Sara, que naquela manhã de Janeiro não conseguiu apagar.

Ricardo Caldeira

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