Abrigo Fundo, by Ricardo Caldeira

Por amor da Santa
(1ª Parte)
Sara ficou imóvel. Tantas noites viradas entre olhares distantes, para hoje, no frio de Janeiro se entregar pela última vez a um gordo anafado de barba por fazer. Pensava ela, que com seis anos de currículo, já não lhe saíam estas anedotas. Devia ser piada da Agência para firmar de ridículo uma saída há muito desejada.
- Como te chamas? Atirou ela.
- Pedro. Gritou uma voz seca que apanhou Sara desprevenida. Sara relançou o jogo e com uma suavidade há muito treinada, ofereceu-lhe uma bebida. Já sem camisa e com as calças a meio das pernas, o gordo transformou-se em bruto, com ordens claras e precisas.

- Deixa lá a bebida e vamos despachar isto. Num pânico contido, Sara apercebeu-se tarde de mais como ilusórias são as aparências. O gordo anafado, inexperiente e virgem, que pensara Sara ser uma última gozação da Agência, revelava-se homem feito a magoar. Naquela meia hora, Sara recebeu uma longa lição. E a indiferença e a frieza do professor não podiam ter causado dor maior.
- Esta nem recebes, fica por conta da casa! Rematou o gordo enquanto saía porta fora. Sara, prostrada em lágrimas, fora violentamente abusada para não esquecer nunca que da Agência ninguém sai por sua vontade.
Debaixo do chuveiro a contas com um banho gelado, Sara sabia não ser esta a última humilhação. Como lhe dissera Rita, o destino traçou-lhe um caminho torto desde o primeiro encontro que a Agência lhe arranjou. Na altura, os sonhos fizeram-na esquecer os cheiros, os olhares vazios e as mãos cegas prontas a agarrar cada pedaço do corpo jovem que aos vinte e dois anos se entregara à missão proposta pela Agência. Esta e porque tratava de tudo, dos clientes ao local de trabalho, ficava, julgava Sara, com pequena comissão de quinze por cento. Com o passar dos encontros, esta margem revelou-se acrescida de juros incalculáveis, roubando liberdade num horizonte qualquer, longe dos falsos sorrisos e dos corpos que já não suporta.
Três dias depois do encontro com o gordo, a Agência voltou a ligar e como se nada se tivesse passado Sara procedeu como de costume. Assentou nome, local e hora, para depois, numa inquietante acalmia se debruçar sobre os preparativos para a noite. Tomou um banho prolongado e entregou-se de seguida a suavizar o corpo com um óleo de amêndoas doces. Pintou-se e terminou o conjunto com um vestido curto num rosa refrescante e provocador. 
Prestes a completar vinte e oito anos, Sara sabe agora não poder despedir-se da Agência e tudo o que pode, é encontrar neste caminho torto do destino uma passagem qualquer para outra dimensão. Longe de Lisboa, da Agência, dos homens de classe média que enojam e que recorrem à Agência para comprar os serviços de Sara, da Rita e de tantas outras de ar saudável com que nos cruzamos na rua. Vamos tão distraídos na beleza delas, que nem reparamos no olhar triste que lhes consome os dias.
Mas agora, mais do que nunca tudo isto lhe parece uma fuga impossível, distante e no entanto cada vez mais desejável, mais justa, mais querida.
Tudo numa fração de segundos a moer-lhe o pensamento enquanto o cliente não bate à porta. Porque quando nesta se ouvir o toque da campainha já não é Sara que comanda, são as vontades e os desejos de um homem que compra no corpo de Sara, prazer, revolta, vingança e poder numa hora de sexo a custos elevados que retiram a Sara e por cada novo encontro a delicadeza do olhar, a ternura e a vontade de um novo amanhã. Quando se deita após cada encontro é apenas na esperança de não acordar envolta no pesadelo que criou com cada homem com que se deitou. E tempo houve em que destes encontros retirou prazer, dominação e suprema vingança, por levá-los à loucura e aos seus desígnios. Mas esse tempo foi curto e há muito que está perdido na confusão de homens pesados, brutos e mudos que lhe tomaram o corpo e lhe negaram as palavras certas de amor e carinho. Talvez essas fossem capaz de suavizar o embate dos corpos nus, desconhecidos um do outro e que por conta da necessidade se entregam os dois como se de velhos amigos se tratassem a contas com uma dívida antiga por saldar. É, como se lê no olhar de Sara, uma cumplicidade feita de nada que é impossível contrariar.
Quando por fim a campainha toca, abre-se a porta do trezentos e doze e com ela o sorriso de Sara, cumprimentando o jovem que não tirara ainda o dedo da campainha. Sara voltou a sorrir e desta vez moveu-a apenas a vontade cómica de um rapaz atraente que se apresenta de ramo de malmequeres na mão como se estivesse à porta da casa da namorada, da mulher dos seus sonhos com quem deseja casar. E nesse breve sorriso Sara sentiu-se lisonjeada, feliz por num instante ser a namorada desejada, a mulher que um dia este homem iria encontrar num branco alvo, numa capela ladeada de imensos malmequeres para se entregar livre a uma vida de terna cumplicidade. Essa é a essência do amor, que se cozinha em fogo lento a cada passo, a cada gesto.
- Entra. Eu sou a Sara. Estava dado o mote para o encontro.
-Ruben. Retorquiu o rapaz enquanto passava timidamente pela porta.
-São para ti, disse, entregando a Sara o molho de malmequeres que aprisionava nas mãos. Sara sorriu e deu-lhe logo um beijo na face, agradecendo o gesto terno do rapaz.
- São lindas, disse-lhe. Sabes, continuou ela enquanto pousava o ramo, nunca ninguém me ofereceu flores.
-É uma pena, constatou Ruben, enquanto se posicionava junto à janela a apreciar o movimento na rua.
- As flores são as palavras mais bonitas que podemos escrever e com elas somos alma, luz e poesia. Não há onda a rebentar no mar, mais forte que essas palavras feitas flores que nos encantam o olhar. Eu adoro flores e não perco uma oportunidade para as oferecer. Neste instante Sara já se entregara a ouvir o rapaz e esquecera por completo a rotina que regia cada encontro.
- Quando ofereço flores à minha mãe, continuou Ruben, faço-o em sinal de respeito por um amor incondicional que não podemos negar. Quando ofereço flores a uma mulher que me atiça no olhar o fogo da paixão, faço-o na expectativa da cumplicidade, para que nos possamos depois entregar a uma noite de amor intenso.
- Foi essa a intenção das flores? Questionou Sara.
- Não, atirou Ruben sem demora.
- Como podia ser essa a intenção se o nosso olhar ainda nem se cruzou? Questionou ele.
Sara estava perdida no sentido enigmático do rapaz que se lhe apresentava cheio de ternura e mais não conseguiu que assumir o seu papel.

- Então como vai ser?
- Primeiro, respondeu ele, deixamos o escuro deste quarto e sentamo-nos na esplanada do Hotel a ouvir os passos dos empregados que nos vão servir um café. Depois quando os passos deixarem de se ouvir, havemos de encontrar nas palavras um sentido para uma conversa a dois, que nos sossegue, que nos empolgue e que nos faça sorrir.
Sara gostou do plano, mas estava já muito escaldada de esquemas e de lobos mal disfarçados, mal intencionados e não conseguiu por isso baixar as defesas.
- Desculpe, eu não sei o que a Agência combinou consigo, mas os meus serviços cingem-se a este quarto e por uma hora, que já corre a caminho da metade, disse ela lançando um olhar certeiro para a imitação de Cartier que lhe embeleza o pulso.
E posto isto começou a despir-se, voltando à rotina de cada encontro ficando o corpo da jovem a realçar uma lingerie branca muito sensual. Ruben lançou dois passos em direção a Sara e parou à curta e desconcertante distância de um olhar para lhe dizer com graça, que assim vestida ela iria causar furor no hotel. Pegou-lhe na mão e dirigiu-se para a porta, arrastando uma Sara boquiaberta pelo inesperado do encontro. 
– Espera! Gritou ela.
(Continua)
Ricardo Caldeira

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