"Histórias Infanto Juvenis da Tradição Africana" por Carlos Duarte


O homem, o leão e a lebre
Certa manhã bem cedo, andava o homem a caçar com os seus cachorros, quando escutou um gemido baixinho vindo do mato adiante, e resolveu ir lá ver o que era. Encontrou um leão, já bastante enfraquecido, preso nos galhos de uma árvore baixa. Armou de imediato o arco para matar o felino, mas o leão abrindo o olho, e com voz débil, pediu-lhe que lhe poupasse a vida, e falou na solidariedade entre caçadores.

O homem perguntou-lhe então, como é que aquilo tinha acontecido, como é que ele fora parar entre aqueles galhos, preso daquele jeito? O leão respondeu que estava caçando, perseguindo um golungo, e quando armou o bote para o pegar, ficou preso nos galhos. O homem, com pena, acabou ajudando-o a sair da armadilha, e o leão, já livre, pediu-lhe um dos cachorros, para se alimentar e recuperar as forças e energias.
O homem a princípio negou; gostava dos seus cachorros, que além do mais lhe faziam falta para a caça e não estava a fim de sacrificar nenhum deles, mas o leão argumentou tanto, que há vários dias não se alimentava, e que assim enfraquecido, não conseguiria chegar a lugar nenhum, que o homem concordou e lhe deu um dos cães.
O leão comeu-o, e já quase completamente recuperado, pediu-lhe também os outros cães, pois ainda ficara com fome. O homem recusou, indignado pela ingratidão do felino, e este, arrogante e ameaçador, foi dizendo que, ou comia os outros cachorros, ou comia o homem.
Estava a situação neste pé, quando apareceu uma lebre, que apercebendo-se de tudo, resolveu salvar o homem. Chegando mais perto, perguntou então aos dois o que se estava passando.
Os dois explicaram, mas a lebre fazendo-se de burra disse não ter entendido nada e assim era melhor lhe explicarem paulatinamente e desde o início. Virando-se para o leão disse: - Você primeiro, mostra como tudo aconteceu até o homem chegar. O leão não se fez de rogado, contou como vinha perseguindo o golungo, e já bem próximo como formara o pulo para o pegar. A pedido da lebre voltou a pular igual e ficou de novo preso entre os dois galhos! Afastaram-se o homem e a lebre, jurando o homem eterna gratidão à lebre, pela sua sagacidade.
Esse dia, porem começou e continuou mal para o homem, que não conseguiu abater caça nenhuma, e não tinha carne para levar para casa. Ao entardecer, quando voltava para aldeia, reparou que em baixo de uma moita, uma lebre estava deitada, como morta! Pensou pegá-la e levar para comer, mas lembrando-se dos acontecimentos de manhã cedo, logo se envergonhou de seus pensamentos.Mas com a fome que estava, raciocinou que devia gratidão a uma lebre, não a todas as lebres, e aproximou-se da moita, para pegar o pequeno animal.
A lebre, que só estava fingindo, logo pulou e disse:

- Então é essa a sua gratidão? Hoje de manhã salvei-lhe a vida, e agora você ia pegar-me para jantar. E afastou-se com seus pulos, para nunca mais confiar em nenhum homem.

“A fome faz esquecer os acordos e as amizades.”



Carlos Duarte

(esta crónica é escrita em português do Brasil)

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