Abrigo Fundo, by Ricardo Caldeira



Tudo parecia certo. A estrada batida em terra seguia sem curvas a direito. Na mota os sonhos de Carlos fervilhavam a cabeça do puto acabado de fazer 12 anos. Quando surgiu o tijolo bruto do muro, já a curva se dera sem que a mota acompanhasse o movimento da estrada para a esquerda em direção ao rio. Do puto voaram as ideias e com elas 3 dentes da frente. A compor a situação, fratura da perna e do garfo da mota que o pai de Carlos vingou com duas lambadas, que lhe valeram outro dente ao chão.

O desgraçado cuspiu a saliva ensanguentada, engoliu a dor e agradeceu ao pai tudo ficar por ali. Por menos o irmão Pedro, levara muitas mais nódoas negras para a escola.
Tudo de manhã parecia menos. Os dentes afinal ainda eram de leite e a mota já de pé, ostentava outro garfo que o pai retirara a mota antiga sem motor. E naquele instante, sem pequeno-almoço a forrar as ideias, só cabia naquela cabeça a tentação imensa de voltar a guiar a mota do pai. Os pés que se arrastaram para o portão onde a tentação se encostava, pareciam possuídos, a precisar de exorcista.

Quando reparou que nem capacete tinha, já Carlos passara pela curva do acidente em direção ao rio, nuns impensáveis 80 Km hora. No final da terra batida misturou-se no pneu o cascalho solto do alcatrão novo, a estrear, que liga a estrada da vila à foz.

Tudo forçava o rapaz a seguir a direito para o mar, pontuando aquela manhã de inverno com uma aventura impossível para qualquer puto. À velocidade da emoção o puto passou um pelotão de ciclistas em treino e a carreira da manhã em direção à cidade. Lá dentro encostada ao vidro, seguia Rute, mãe de Carlos, que não viu o perigo a que o filho se atirou na audaciosa ultrapassagem à carreira já na entrada da cidade.

Sentado na areia, saboreou a vitória da viagem. O vento que correra nos cabelos do puto, libertara garra e alento, mas não o preparara para o chapadão do pai que lhe acertou a meio da viagem de regresso, onde parado em operação Stop, o puto se viu obrigado a ceder o nome do pai.Desta vez e além das mãos do pai, que só por sorte não lhe roubaram mais dentes, o puto ficou no castigo do rebanho, livrando-se das idas à escola. Foram 4 meses feitos de mudanças profundas.

A cada dia com o rebanho, menos contatos com a escola, as rotinas e a vontade de concluir o ano. Depois foi o trabalho de Verão na fábrica onde a mãe embala chouriças, a fazer caixas atrás de caixas.

Tinha agora 13 anos e trabalhava 8 horas entre mulheres, muitas mulheres, mães, avós e tias, mas também Maria, onde o puto deixava dependurado o olhar. O peito de Maria, uma meia dúzia de anos mais vivido que o puto, resplandecia desejo e  atirava o puto para sonhos impossíveis.

Quando lá para o fim de Agosto, ela lhe perguntou se queria ajudar na vindima do pai em Setembro a troco de uns garrafões, ficaram coladas às paredes da cabeça do puto as palavras que não se conseguiam ouvir. O silencio estúpido do puto, chateou a rapariga que já a oferecer-lhe uma chapada pela palhaçada, lá foi interrompida por um sim trémulo, que acertou as pernas do puto com mais força que qualquer das chapadas do pai. Esse agora parecia um menino!

Nesta excitação os dias de Agosto até Setembro pareciam rastejar no tempo. O cartão pré-dobrado para fazer as caixas parecia não acabar e as noites a sonhar com Maria pareciam um abismo sem fim. Sobretudo a última a que durou até às 6 da manhã do sábado da vindima. Partiu sozinho na caixa da carrinha, que a cabine albergava apenas a Maria, o irmão e os pais. Resignado à distância doce de Maria, enrolou-se a uma manta e aguentou enregelado a viagem matinal. Chegados à aldeia, dividiram-se as forças. Mulheres para os lados da cozinha a preparar a merenda do almoço e o desgraçado do puto para a vindima de tesoura na mão. Que nos primeiros andamentos lhe valeu alguns cortes. Os dedos do puto não estavam treinados para a rapidez das lâminas e nos primeiros cachos ficou o sangue da vindima. Depois tudo acalmou e entre os cantares da festa, fizeram-se para cima de 200 cestas de uva, que foram depenicando.

Cansado da vindima, o puto já só descansou os olhos no sorriso da Maria, depois do banho e do jantar. Envoltos pela luz trémula da fogueira, os corpos foram-se encostando no abraço dos casais e o puto abraçado pelo cansaço à manta da carrinha, já só pensava em dormir. Foi Maria que o despertou, surpreendendo-o com uma caneca de café. O rapaz aceitou, ainda que desabituado destes rituais, estreando-se no sabor amargo da oferta. A rapariga sossegou-o com um olá e sentou-se ao lado do puto, apatetado com a situação. Ela percebendo o embaraço do puto, pegou-lhe na mão e segredou-lhe ao ouvido:

Ter nos olhos teus
O sorriso do embaraço
É ter nos olhos meus
O desejo do nosso abraço.
És em tudo magia
Dia quente de Maio
Um sufoco de euforia
Raio!
Gravaste-te a quente
No correr dos meus passos
Trago-te sempre presente
Nos pequeninos, grandes espaços.

Ricardo Caldeira

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