"1...2"



"Vão querer encarcerar-te numa sala escura e vazia, porque ninguém quer ter um conhecido maluco que te faz lembrar de ti mesmo, o tempo todo, da tua angústia, da verdade e de teres nascido. Passas a vida cego, a mentir, a fingir, a teatralizar a tua personagem que vence sempre, que controla sempre, que se resguarda sempre e nunca abres a portinha da alma para o mundo. Só que a tua portinha um dia será pó, e tu morres sem nunca teres vivido, e deixas de existir sem nunca teres sido notado. Uma mulher olha para dentro da alma e tem um confronto entre o que ela é e o que o seu verdadeiro Eu grita. Ela conversa consigo própria. 1…2 – Significa seguir em frente." 

Esta é a sinopse do espetáculo "1...2" e eu estive à conversa com o elenco: Patrícia Caeiro, Nayana Rodrigues e Luís Salvador.

Como surgiu a ideia deste Espetáculo?

Patrícia Caeiro: A ideia de criar este espetáculo surgiu a partir de um texto/poema que escrevi para a minha amiga e colega Nayana no ano passado e que se chamava "1...2". O poema não tinha diálogos, era apenas prosa. Ela leu o poema numa sessão de poesia encenada. Este ano estávamos em reunião de produção com o nosso Grupo de Teatro TEN_TART e a Nayana desafiou-me a reescrever este texto e fazer dele uma pequena peça de teatro, ao qual chamamos de espetáculo. De uma poesia surgiu um manifesto que ao rescrevê-lo, criei a principio duas mulheres a conversar consigo mesmas, e mais tarde surgiu-nos uma terceira mulher e o texto ganhou vida própria, aumentou, entrou na linguagem teatral.

No cartaz do espetáculo falam em crítica social. Acham que através deste texto conseguirão tocar as pessoas, mexer mentalidades, produzir introspetivas?

Luís Salvador: Eu quero acreditar que sim! São nas pequenas ações e são as pequenas vozes que vão fazendo a diferença. Quando nos dizem grandes verdades e retratam a nossa vida de forma tão real, acabamos por pensar nos nossos atos. Com sorte alguns mudarão e irão passar isso a outras pessoas.

Na vossa opinião andamos todos encarcerados por vontade própria ou porque a sociedade nos empurra para esta situação?

Nayana Rodrigues: Na minha opinião os ser humano nasce livre, mas existe um sistema instalado na sociedade  que desde pequenos nos ensina a não pensarmos por nós e que nos empurra para uma prisão invisível da qual nos é muito difícil sair. Essa prisão é como uma semente que está lá para germinar, quanto mais anos vives no sistema mais preso ficas, mesmo que o negues a todo o custo. O ser humano é racional e por isso aprende o "dever ser" com o passar dos anos o "dever ser" tem um peso maior (existem contas para pagar, necessidade de constituir família, ter um bom ambiente no trabalho etc.), daí nasce a  necessidade de estabilidade, de pertencer a algum lado, para tal coisa acontecer o nosso cérebro vai buscar a mensagem que lhe foi exposta durante anos. (Se não te comportares de certa forma, falares duma certa maneira, se não te vestires como o sistema quer, vais acabar sozinho... ninguém se vai manter ao teu lado!). Se negares tudo isso e tiveres a coragem de ser tu, a prisão mental  funciona de outra maneira e prende-te a partir da tua própria cabeça, a partir da culpa. Como não consegues adaptar-te à sociedade culpabilizas-te  por estares só...sofres por estares só e acabas por prender a cabeça de outra maneira.

O que vos une neste espetáculo?

Patrícia Caeiro: O que nos une é sermos atores, é lutarmos e tentarmos sempre fazer aquilo que acreditamos e mais agora que Portugal apoia pouco ou quase nada os artistas. Mostrar que existem outros espaços artísticos como a fabulosa Fábrica do Braço de Prata que nos acolheu, deu espaço de ensaio e dias para apresentar o nosso espetáculo sem querer nada em troca e acreditarmos que o Teatro e a arte servem um País e servem um povo, somos transmissores de mensagens, e devemos ser pró-ativos. Todos acreditamos nos que estamos a dizer porque vivemos estas palavras que vamos dizer no dia a dia, como tantos de nós artistas, ou não artistas - As pessoas. Só unidas, as pessoas podem mudar as coisas.

Nayana Rodrigues:  O Que nos une essencialmente, na minha opinião, é a vontade de passar uma mensagem de verdade ao público português fazendo com que este vá para casa com algo para pensar. Somos os três atores independentes com visões do teatro diferentes mas a verdade é que  todos nós à nossa maneira nos identificamos com o texto e conseguimos transpor algo dali para as nossas vidas. Todos nós enquanto artistas queremos passar calor humano a esta sociedade que está a esfriar e a tornar-se apática. 

Luís Salvador:  Une-nos a responsabilidade enquanto atores, em fazer com que as pessoas cresçam e vão para casa pensar. Une-nos também a má situação das artes no nosso País, onde não temos apoios e esta área não é fácil. As artes são uma arma poderosa, mas os nossos políticos ainda não descobriram isso. Também nos une a vontade de trabalhar. Eu, como o ator mais inexperiente deste elenco, digo que não é fácil começar neste área, e não podemos esperar que nos chamem para um espetáculo. São pequenas/grandes coisas que nos unem e se não tivermos iniciativa para dar um “grito” e revolucionarmos um pouco as coisas, as coisas ficarão iguais, sem crescimento, sem nada.

O espetáculo "1...2" está aberto ao público nos dias 27,28 e 29 de março na Sala Prado Coelho - Fábrica do Braço de Prata - às 22h30. 



"Uma mulher olha para dentro da alma e tem um confronto entre o que ela é e o que o seu verdadeiro Eu grita. Ela conversa consigo própria."

Texto:
Patrícia Caeiro

Encenação:
Nayana Rodrigues

Som e Luz:
Luís Salvador

Imagem:
Vanessa Namora Caeiro

Elenco:
Luís Salvador
Nayana Rodrigues
Patrícia Caeiro 

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