Um Pouco de Tudo, por Aldy Coelho


    Vista do Castelo São Jorge

DA SÉRIE “PÉ NA ESTRADA”: RETORNANDO ÀS ORIGENS

O ano de 2013 acabou e deixou para o ano de 2014 um gostinho de quero mais. Mais aventuras, mais desafios, mais conquistas, mais amigos, mais amor e mais saúde pra gente dar conta de tudo isso. E uma das grandes aventuras de 2013 que me deixou com esse gostinho de quero mais foi essa incrível experiência de viver em outro país, e conhecer tantos outros que antes eu só visitava em sonhos.

Depois de dez meses vivendo em Dublin, resolvi botar a mochila nas costas e explorar alguns países europeus. O primeiro país que eu escolhi para conhecer não poderia ser outro senão Portugal, e um dos motivos da minha escolha foi por ter a possibilidade de voltar às origens, afinal, eu e tantos outros milhares de brasileiros temos sangue português correndo nas veias. Além de nossa descendência também temos nossos costumes, tradições, nossa língua, enfim, uma série de fatores que nos fazem países-irmãos.

Ao descobrir as estreitas ladeiras, ver praças e prédios de arquiteturas antigas, me fez sentir como se eu estivesse no Brasil, passeando pelas pequenas cidades do Vale do Paraíba, região onde nasci, ou mesmo pelas cidades de Minas Gerais, todas fundadas por imigrantes portugueses ou seus descendentes. Não é a toa que em cada lugar de Lisboa por onde passava eu dizia ‘olha, parece a praça central de Guaratinguetá!’, ou ‘aquele prédio se parece com um de São Luiz do Paraitinga!’, que são duas cidades do Vale do Paraíba Paulista e que conservam alguns prédios de mesmo estilo arquitetônico.

Dentre os inúmeros pontos turísticos visitados, o mais curiosos que conheci em Lisboa foi o Castelo de São Jorge, que para mim teve uma significativa importância, pois conhecendo e lendo sobre a origem do local pude entender um pouco mais sobre um espetáculo que assisto desde criança. Explico. Na já citada cidade de São Luiz do Paraitinga, mais precisamente no Distrito de Catuçaba (local de onde toda a minha família veio, e que rende outro artigo no futuro), existe um grupo popular que apresenta a tradicional Cavalhada, que é um folguedo equestre de origem portuguesa e representa o período da reconquista da Península Ibérica pelos cristãos, uma vez que esta área estava dominada pelos mouros.


    Castelo de São Jorge

O que eu pude entender ao visitar o Núcleo Arqueológico do Castelo de São Jorge foi justamente sobre esse período de dominação pelos muçulmanos na região de Portugal, que contribuíram para a construção de Lisboa. Ao andar entre suas ruínas e torres, consegui compreender a importância que aquela fortificação preserva, além da história e seus elementos arquitetônicos característicos das fortificações militares de época islâmica.


   Castelo de São Jorge

E de volta à Cavalhada, no Brasil existem apenas dois grupos que apresentam este espetáculo, mas a Cavalhada de Catuçaba é a única que mantém ainda as características portuguesas, e há registros desta manifestação em São Luiz desde 1870, e desde então a tradição continua praticamente passando de geração a geração até hoje. Conta-se que a Rainha Isabel de Portugal decretou uma lei que em toda a Festa do Divino deveriam acontecer apresentações de Cavalhada, como símbolo do cristianismo, e realmente essa tradição portuguesa ainda se mantém no Brasil ainda hoje, com a Cavalhada de Catuçaba se apresentando todos os anos na Festa do Divino e em outras festas religiosas da região. E só estando no lugar onde toda esta história aconteceu para conseguir compreender a origem dessa tradição.


    Carvalhada cap VII


 Carvalhada II cap VII

Estando em Lisboa, conhecer o Padrão dos Descobrimentos, assistir o pôr do sol do seu topo, e pensar estar no mesmo lugar de onde saíram as caravelas que aportaram no meu país há quase 514 anos é no mínimo sensacional, sem contar a beleza de monumentos como a Torre de Belém, o Mosteiro dos Jerónimos, e se deliciar com os originais pasteizinhos de Belém... É de se lembrar com água na boca!

Outra cidade portuguesa que conheci foi Porto, onde vivenciei outra interessante experiência que foi a de assistir um show de fado. Confesso que sempre achei esse estilo musical um pouco melancólico, porém, ao ver e ouvir o grupo de fado durante um jantar eu fiquei realmente encantada com tanta emoção e potência vocal das fadistas, que com graça e beleza, xale nos ombros e flores nos cabelos, cantaram seus amores, suas famílias e a natureza portuguesa. Não é a toa que este estilo tornou-se Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade reconhecido pela Unesco.



Sentar-se as margens do Rio Tejo e vislumbrar aquele horizonte infinito num dia de céu aberto, ou tomar um vinho do Porto as margens do Rio Douro despertam sensações tão indescritíveis que nos fazem querer mais e mais.

Foram tantas caminhadas e descobertas em Porto e Lisboa que seria impossível contar tantas experiências em um só post. Agora entendo a difícil missão de Pero Vaz de Caminha ao escrever ao Rei de Portugal sobre as descobertas brasileiras, mas desta vez são apenas as observações de uma simples jornalista-turista contando sobre as suas impressões e descobertas portuguesas.



    Porto
E para finalizar, o que mais me chamou atenção durante o período que estive em Portugal foi simplesmente a simpatia do povo lusitano, sua alegria e seu bom humor, pois em todos os momentos, nos lugares por onde passei, me senti acolhida tal qual uma família recebe um ente querido. Entendo agora de onde vem a alegria e a simpatia do povo brasileiro, uma herança que recebemos como tantas outras deste país, e sempre quando reconheciam meu sotaque característico, me perguntavam com muito carinho sobre o Brasil e nos chamavam de povos-irmãos.


   Vista Padrão dos Descobrimentos

Pode parecer meio clichê, mas sem dúvida este foi um dos melhores países que visitei, e me senti tão em casa que pretendo retornar a Portugal, para conhecer outras cidades, tomar mais ginginha, comer o melhor bacalhau e vários pasteis de Belém, só espero que a próxima oportunidade seja em breve!

P.S. Não posso deixar de citar como mais uma experiência incrível em Portugal o encontro com a querida Rosária, que nos recebeu tão bem em Cascais (esse pedacinho do paraíso) e que me ofereceu uma noite cultural com tudo o que mais gosto, café, doce, bons amigos, boa conversa e teatro! Muito obrigada amiga! Te espero no Brasil! 


ALDY COELHO

aldycoelho@gmail.com
Fotos: Fábio Teberga
(esta crónica é escrita em português do Brasil)  

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