Crónicas da Brilha


Casar ou não casar: eis a questão!

Quando era criança escrevia todos os meus livros com pena e tinteiro, de preferência à luz da vela. Esta atitude romântica foi-se perdendo com o passar dos anos. Certo que fui sempre mantendo o caderninho preto, mas a dado momento ponderamos se valerá o simbolismo, se não se torna mais fácil, mais rápido, mais económico, utilizar o imaterial, as letras digitadas à pressa numa folha de papel virtual à frente da qual me sento e que daqui a uns anos certamente não encontrarei enquanto remexer gavetas para deitar fora coisas de que já não preciso.

Na verdade, já me habituei a não usar a folha de papel.

Se fico triste? Sim. Do mesmo modo que já me habituei ao desacordo ortográfico. Mas internamente resisto no reduto do simbólico.

Passa-se o mesmo quando decidimos dar o passo em frente. Queremos as folhas das árvores a baloiçar ao vento, as gotas de orvalho a cair-nos no cabelo. E quem sabe um abraço trocado ao fim da tarde com um estranho seja o primeiro passo nesse sentido.

No fundo, não há como seguir o coração, estar em paz com as nossas decisões, e (quem sabe?) talvez demos por nós a passear calmamente num jardim que sempre foi, que há de ser e em que a luz parece estranhamente certa.

O simbolismo encontrará o seu caminho se assim houver de ser, para os que acreditam e, por muito que não se acredite no destino, certas coisas parecem tão certas como sempre assim tivessem sido escritas com pena e à luz da vela.

Ana Brilha

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