"Histórias Infanto Juvenis da Tradição Africana" por Carlos Duarte


Lenda do Tchiluanda e do Rinoceronte


O Tchiluanda é um pássaro carraceiro que invariavelmente, anda na companhia do sisudo e carrancudo rinoceronte.

É de extrema utilidade para o grande mamífero, pois além de o aliviar dos parasitas que o incomodam, alimentando-se deles, também o avisa, com o seu grasnar alto e dissonante, de qualquer presença estranha.

Essa amizade começou há muito tempo, quando no mundo todos os animais viviam em harmonia, e podiam falar uns com os outros.

Certo dia, estava o Rei dos Tchiluandas impossibilitado de voar, por causa de um ferimento numa asa quando surgiu um problema entre os seus chefiados do outro lado do rio.

O mensageiro que lhe veio trazer a novidade, exagerou na gravidade do assunto, a fim de o apressar.

A ave, naquela difícil situação, resolveu pedir ajuda a um animal grande, sobre cujas costas pudesse ser transportado à outra margem, em segurança.
Dirigiu-se primeiro ao leão que, bocejando preguiçosamente, lhe perguntou como é que um insignificante pássaro, ousava dirigir-se ao rei dos animais, para tratar de assunto de tão pouca importância.

Em seguida, o Tchiluanda, dirigiu-se ao elefante que, com um gesto de desdém na tromba e um sacudir de orelhas, lhe disse não servir de montaria para animal nenhum da floresta.

Depois o pássaro apelou para o hipopótamo que escancarando a boca numa risada, mergulhou de novo, sem querer se dignar a dar uma resposta.

E assim, de negativa em negativa, o preocupado pássaro, foi percorrendo todo o grupo de grandes bichos, até que já desanimado, se dirigiu ao rinoceronte, que mal o Tchiluanda lhe fez o pedido, acedeu com toda a boa vontade.

Os outros bichos não gostaram. Como é que ele concordava em fazer uma coisa a que todos se tinham negado?

Mas o rinoceronte, sem ligar nem um pouquinho para as críticas, abaixou-se para que a ave pudesse subir para o seu dorso, e transportou-a para a outra margem.

Os outros bichos todos, afrontados, mas sem coragem de enfrentar diretamente o rinoceronte, juraram que, a partir daquela data nunca mais se juntariam a ele, que com os seus problemas de miopia e surdez, havia de amargar a solidão.

Quando o Tchiluanda, com o ânimo dos seus comandados serenado e o ferimento da asa curado, soube do boicote, como prova de gratidão pela solidariedade, foi procurar o rinoceronte e disse-lhe:

- Você foi o único animal da floresta que se prontificou a ajudar-me quando eu mais precisava; sou pequeno e tenho pouca força, mas de hoje em diante estarei sempre em sua companhia, para demonstrar a minha gratidão e serei seus olhos e seus ouvidos, e útil em tudo o que me for possível.

Carlos Duarte
(esta crónica é escrita em português do Brasil) 

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