Enquanto isso... Do Outro Lado do Atlântico


Milagres existem?

Sim. Definitivamente, milagres existem. Mas não necessariamente são aqueles nos quais montanhas são movidas, mares são abertos, ou pessoas são curadas.

Claro que também acredito que esses aconteçam, mas os milagres do dia-a-dia são muito mais frequentes do que percebemos e por isso não os valorizamos tanto.

Ontem, comigo, aconteceu um pequeno milagre.

Estou em férias, mas, ocupado com pequenos consertos em casa e compromissos de final de ano, não programei nenhuma viagem.

Assim, sem muito planejar e pensando nos dias em férias que teria pela frente, resolvi dar passeio com minha mota.

Como gosto da estrada do litoral, resolvi ir até Angra dos Reis, numa viagem de uns 500 km, ida e volta, apenas em um dia, nenhum sacrifício para quem gosta de viajar de mota.

O tempo estava ótimo. Quente, porém, nublado, mas sem chuva.

Acordei, tomei café com minha esposa e ela foi trabalhar. Eu, sem muita pressa, cuidei dos cachorros, peguei o que achava necessário e verifiquei as condições da mota e parti para meu destino.

A estrada estava calma, bonita e bem cuidada. As cidades iam ficando para trás e o tempo corria devagar para eu aproveitar cada momento da viagem.

Perto de Paraty, após uns 150 km percorridos, comecei a imaginar onde pararia para meu almoço. Lembrei-me de um lugar muito bonito e que sempre me traz boas recordações. É um quiosque à beira da estrada, uns 10 km após Paraty, chamado “Toca do Pastel”. Lá são feitos uns pasteis deliciosos, principalmente os de frutos do mar.

Cheguei, deveria ser quase meio-dia. Ansioso, parei minha mota e fui ao balcão fazer meu pedido: pastel de “Camarão ao Catupiry”.

Enquanto esperava fui examinar minha mota. Ela estava com um pequeno barulho e verifiquei tratar-se da corrente, um pouco seca. Coloquei a mota em seu cavalete central, liguei e lubrifiquei a corrente. O rapaz que estava no balcão levou meu pedido até uma mesinha e me avisou. Desliguei a mota e fui comer. Havia um outro homem, numa mesa a minha frente, e enquanto comíamos trocávamos algumas palavras.

O pastel estava ótimo, a paisagem, deslumbrante, mas a estrada me chamava a prosseguir.

Terminei com meu pastel, despedi-me de ambos, vesti minha jaqueta, meu capacete, coloquei a chave na ignição, dei a partida, mas, para minha absoluta surpresa, a mota não pegou.

E agora? O que fazer? Primeira coisa: Não perder a calam e ser objetivo. Segunda coisa: verificar a mota. A chave estava “ok”, os botões na posição certa, o alarme desligado. Levantei o banco e os verifiquei fusíveis: tudo certo. Ando sempre com um multímetro na minha mala de ferramentas, então o peguei e verifiquei a voltagem da bateria. Era esse o problema. Dos doze volts só restavam três na bateria.

Problema descoberto. Mas e agora? Eu precisava de um cabo para conectar a outra bateria para funcionar o motor.

O outro homem sequer perguntou seu eu precisava de ajuda e, sem se despedir, foi embora. Perguntei ao rapaz se ele tinha um cabo em seu carro, ele disse que não.

Nesse meio de tempo outro carro chegou. Fiquei trocando algumas palavras com o rapaz no bar, enquanto esperava que as pessoas que chegaram terminassem sua refeição.

Eles terminaram e quando perguntei sobre o cabo eles disseram que também não tinham. Perguntei, então, se poderiam dar-me uma carona até Paraty, mas me disseram que não iam para lá e foram embora. Ficamos só eu e o garoto do bar.

Agora imaginem: moto parada, eu praticamente sozinho, longe de casa, longe da cidade, longe de mecânicos. Só tinha uma coisa a fazer: ir para a estrada, pegar um auto carro para a cidade, comprar um cabo e voltar com um táxi.

Nessa hora já eram duas da tarde. Com certeza, eu só conseguiria voltar para casa à noite.

Atravessei a estrada e fui esperar o auto carro do outro lado da pista, mas, enquanto esperava, eu só podia fazer uma coisa: rezar. E foi o que fiz. Mas eu não rezei pedindo nada, nem reclamando de nada. Rezei agradecendo tudo de bom que tinha acontecido na viagem e pela possibilidade de eu estar ali, são e salvo, sem quaisquer maiores complicações e com plenas condições de resolver meu problema.

E rezei bastante, pois não passava nenhum auto carro, para minha sorte. Digo isso, pois, o próximo carro que entrou na “Toca do Pastel” trouxe consigo um desses pequenos milagres aos quais me referi no início dessa história.

Vendo o carro entrar, mas com medo de que algum auto carro passasse, corria até ele e logo que o motorista abriu a porta, eu, até meio atrapalhado, perguntei se ele teria um cabo para eu conectar bateria de minha mota, e, para minha felicidade, ele tinha!

Contei minha história e fiquei duplamente impressionado quando ele, calmamente, com um sorriso no rosto me falou: “_ Vamos dar uma olhada na sua mota. Eu também sou eletricista.”

Simplesmente inacreditável. Quais as probabilidades disso ter acontecido? Eu poderia ter pego carona; eu poderia ter pego um auto carro; eu poderia não ter parado ali; o senhor que me ajudou poderia não ter parado ali; eu poderia ter viajado outro dia!

Ele revisou toda a parte elétrica da minha moto e nem quis cobrar nada. A única coisa que pude fazer foi pagar a conta de seus pasteis com a família.

Liguei a mota e cheguei em casa antes das seis da tarde.

Agora, me digam, milagres existem, ou não?

Silvio Kanda
(esta crónica é escrita em português do Brasil)  

Sem comentários

Com tecnologia do Blogger.