Enquanto isso... Do Outro Lado do Atlântico


A vida começa aos quarenta.

Desde que eu era garoto eu ouvia essa frase. Acho que muita gente também já ouviu, mas nunca deu atenção ou crédito a essa verdade, como eu mesmo, há alguns anos. Mas, quando a vida realmente começa? Quando nascemos, é claro. Alguns acham que até antes, na concepção. Mas quando começamos realmente a viver?

Quando éramos crianças nem ao menos tínhamos percepção do que significava viver. Apenas existíamos, de uma maneira muito simples e gostosa. Os dias eram longos e arrastados à espera de nossos aniversários e Natais. E como era bom isso. Nossas preocupações resumiam-se aos presentes que desejávamos, em passar de ano na escola e em esperar as férias para irmos à praia. Mas ainda não havíamos começado a viver.

Depois veio a adolescência. As preocupações mudaram de foco. Veio a fase das primeiras incertezas, da rebeldia, das mudanças físicas, da solidão, dos primeiros amores, dos primeiros passos em direção ao mundo adulto, de decidir qual caminho tomar e, como todo adolescente, achávamos-nos seres superiores e imortais. Mas ainda não havíamos começado a viver.

Daí, a faculdade. Maiores liberdades, maiores responsabilidades, maiores decepções e realizações. Mas será que já havíamos tomado consciência de que a vida tinha começado? Acho que não. Essa fase é tão corrida que nem dá tempo de pensar sobre isso, e ainda estamos transitando entre a vida adulta e a adolescência.

Mas ainda estamos no começo. Depois vem o trabalho. Procura-se aqui, corre-se ali, estuda-se mais isso, aprende-se mais aquilo, até você conseguir sua primeira colocação.

Então, um dia, você encontra quem procurou a vida inteira e começa a partilhar sua vida como nunca imaginara, ou mesmo, nem acreditava que pudesse um dia ser. Ai a vida começa. Errado.

Depois vem a casa, os bichos, os filhos, o carro novo, os amigos novos, as feiras, as  viagens, daí sim, começamos a viver.

Bem, acho que ainda não. Os filhos crescem, tem de ir à escola, depois à faculdade e aí você começa a se ver neles e percebe que todas as suas preocupações e medos e alegrias são apenas coisas passageiras pelas quais todo mundo tem de passar um dia.

Então, nessa hora, você se olha o espelho e percebe que já passou dos quarenta. E agora? Agora a vida começa? Talvez.

Não sei sobre você, mas para mim a vida começou quando eu entendi o significado “Zen” da frase “A vida começa aos quarenta”. E eu já tinha muito mais de quarenta. 

Na verdade essa frase é apenas uma metáfora. A vida começa quando você entende. Mas entende o quê? Não importa. Apenas entende.

Aos dez anos de idade, você nem pensa sobre isso. Aos 17, você já pensa em viver, mas ainda não idéia do que é. Aos vinte e cinco, você está muito ocupado consigo para pensar sobre o assunto. Aos trinta, você está preocupado demais em ter, para pensar em ser. Aos quarenta, você começa a perceber que há outras coisas nessa vida e é só nessa idade que você começa a tentar entender seu sentido.

Como na infância, na adolescência e na juventude, “quarenta anos” é mais uma fase de nossas vidas, na qual começamos a ter maturidade  suficiente perceber do que se está falando. E é nesse momento que a vida começa, quando você percebe que ela é mais breve do que você pensa e muito mais interessante do que você imaginava.

A vida começa aos quarenta, aos quarenta e cinco, aos cinquenta, mas poderia começar antes. O problema é que começar a vida, depende da percepção que cada um tem dela. Quem não entende isso, talvez apenas exista, sem saber o que é viver.

Mas, talvez, o mais importante de tudo seja a pergunta: o que é viver?
Eu não sei explicar, mas se você está chegando aos quarenta está começando a entender, e quando estiver lá com certeza vai saber do que estou falando.   

Silvio Kanda
(esta crónica é escrita em português do Brasil)                   

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