Enquanto isso... Do outro Lado do Atlântico


Você sabe com quem está falando?

Outro dia eu recebi um pequeno vídeo pelo e-mail, que veio com muita recomendação, dizendo tratar-se de uma grande verdade, muito bacana, genial, e outros adjetivos apologéticos.

Era de um conhecido palestrante, que tem, entre outras qualidades, o dom de fazer-se ser ouvido. Seu discurso realmente era muito interessante, bastante lógico, muito convincente, mas nada que fosse novidade.

Ele contava uma história sobre ter encontrado alguém muito arrogante que, não me lembro por qual motivo, querendo alguma vantagem, ou demonstrando força, teria lhe feito a conhecida pergunta: “Você sabe com quem está falando?”

Na verdade essa pequena história era apenas um pretexto para dar introdução ao seu verdadeiro objetivo: discorrer sobre a condição humano perante o universo. A pergunta básica que dava início a toda a discussão era : “O que é o ser humano?”

Para chegar à resposta ele começou a descrever o universo, desde o “Big-Bang”,  que (segundo ele) de acordo com a ciência ocorreu há mais ou menos 15 bilhões de anos. Ele, então, começou a descrever como o universo veio a ser formado, primeiro com o nascimento das estrelas, que foram se juntando em galáxias, e que a ciência calcula que sejam 200 bilhões, sendo que a nossa, a “Via Láctea”, possui 100 bilhões de estrelas, dentre as quais uma pequenina, de quinta grandeza,  chamada Sol, que por suas vez tem nove planetinhas girando ao seu redor, sendo o nosso o 3º mais próximo.

Demonstrada a insignificância de nosso planeta, ele partiu para a demonstração da insignificância do homem dentro do próprio planeta, explicando que em nosso meio ambiente existem 30 milhões de espécies, sendo que apenas 3 milhões foram catalogadas, dentre elas o homem, espécie com aproximadamente 6,5 bilhões de indivíduos, sendo você apenas mais um. Encerando, após uma breve pausa, ele se voltava aos que o assistiam e perguntava: Quem é você? Xeque–mate. A unanimidade das pessoas colocava-se em seu lugar e percebia sua pequenice perante o universo.

Concluindo sua apresentação, de maneira a não deixar espaço para dúvidas ou questionamentos, ele dizia que quando alguém perguntava a ele se sabia com quem estava falando, sua resposta era: “Você tem um tempinho?”

O riso era solto, a tese aceita e agora todas as pessoas já sabiam com quem estavam falando.Uma teoria muito boa, um raciocínio perfeito, mas... Tem uma falha.

É verdade que diante da enormidade do universo, não sou ninguém, ou melhor, sou nada. Porém, se prestarmos atenção ao que foi dito e pensarmos um pouco sobre o assunto, vamos perceber que o ser humano é exatamente o oposto. 

Quem é você? Você, na verdade, embora seja menor que um grão de poeira cósmica, é a maior obra de todo o universo.

Veja, entre tantos bilhões de estrelas, planetas e constelações, até agora, somos os únicos organismos vivos e inteligentes no universo. Além do mais, já dizia Einstein, tudo depende do referencial. Perante o universo sou nada, mas perante outro ser humano posso ser o motivo de sua existência. Além do mais, se disser a alguém que ele é nada estarei assumindo que também não sou nada.Nada disso, sou muito, nem que seja para mim mesmo.

Mas qual a importância disso?  Se pensarmos bem, nenhuma.
Na verdade, o que importa não é discutirmos quem somos, ou o que somos, mas sim a própria discussão, sem simplesmente aceitarmos o que nos é dito.
Se eu aceitar o que foi dito, tenho de assumir que sou nada perante o universo, o que não é verdade.

Ouviu, gostou, reflita, pois uma série de argumentos válidos nem sempre significam conclusões válidas.

 Silvio Kanda
(esta crónica é escrita em português do Brasil)  

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