"Histórias Infanto Juvenis da Tradição Africana" por Carlos Duarte


As fábulas, histórias e lendas, contadas ás crianças  Africanas, ao anoitecer, em grandes e animadas rodas, quase sempre tendo como personagens os bichos da floresta, invariavelmente encerram uma lição de vida, ou a exaltação de um valor moral. 

Poucas histórias têm como objetivo único  divertir; o motivo principal dessa tradição oral, é fazer das lendas e fábulas, um dos alicerces da educação das crianças.

Além dos valores que exaltam, e das lições de vida que encerram, orientam também sobre regras de conduta, no âmbito pessoal e tribal.

Justificam ainda, de uma forma coerente, amizades e inimizades entre os bichos, fenômenos da natureza e acontecimentos do dia a dia, no contexto da vida na tribo e no mato, bem como as relações do homem com os outros seres vivos.

A seleção de histórias que se segue, foi coletada entre diversas tribos angolanas, e transcrita com o cuidado necessário, para manter inalteradas as mensagens que nos propomos transmitir.


A sabedoria do mundo  

No começo do tempo, uma coruja decidiu certo dia, guardar dentro de uma cabaça, todo o conhecimento e sabedoria do mundo, para só ela ter esse poder, e assim todos os bichos da floresta dependerem dela, sempre que quisessem saber ou conhecer alguma coisa.

Depois de reunir todo o conhecimento e sabedoria, colocou dentro de uma cabaça, tampou muito bem tampada, segurou-a com as garras e voou para o alto de uma árvore grande, onde a cabaça podia ficar escondida e inacessível a todos os outros bichos.

Só que, como segurasse a cabaça com as garras, não conseguiu pousar nem se segurar nos galhos, e voou então de novo para o solo, para pensar num outro sistema.

Nesse meio tempo, grande número de bichos já se estava reunindo, curiosos pelas manobras da coruja.

No chão, a coruja pensou um pouco, e resolveu então pendurar a enorme cabaça ao pescoço, pois assim ficava com as patas livres para se segurar ao galho; pendurou e alçou vôo, mas a cabaça era muito grande e ela tinha que ficar com a cabeça muito levantada, de maneira que ficou também impossibilitada de pousar, pois não conseguia calcular a aproximação do galho.

Voltou de novo, debaixo de grande vaia e gozação dos outros bichos, até que o macaco a aconselhou a levar a cabaça ás costas, pois assim não lhe atrapalhava a posição da cabeça, nem lhe ocupava as patas. A coruja escutou o que o macaco disse, ( frase de uma sabedoria que ela não conseguira imaginar) e concluiu que era impossível guardar toda a sabedoria e conhecimento do mundo com um só bicho. 

Vendo que estava sendo muito burra e egoísta, querendo fazer precisamente isso, pegou a cabaça, alçou vôo o mais alto que lhe era possível, e soltou-a. A cabaça quebrou-se ao bater no solo, espalhando todo o conhecimento e sabedoria nela contidos, por uma grande área, de maneira que cada ser vivo, poderia colher um pouquinho para si mesmo.

Por esta atitude da coruja, é que ela é conhecida até hoje, como o mais sábio de todos os animais.

 Carlos Duarte
(esta crónica é escrita em português do Brasil) 

1 comentário

DB disse...

Gostei muito quer da fábula quer da escrita. É uma pena perder-se a tradição oral pois é uma forma simples e marcante de transmitir valores às crianças, através das histórias contadas. Parabéns ao Armazém por dar a conhecer este talento e ao autor por manter vivo esta riqueza cultural.

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