Enquanto isso... Do outro Lado do Atlântico



Mais do que estar feliz e saber que se está feliz.

Um dia desses, navegando pela internet, tropecei numa música que há muito não ouvia. Era uma música de um filme que não vem ao caso, pois poderia ser qualquer música, de qualquer filme.

Durante toda minha juventude a música foi uma grande companheira. Embalava meus sonhos e me fazia carinho nos momentos de solidão. Com uma saudade feliz fui ouvi-la. Foi muito bom. Uma sensação de leveza, simplicidade (não sei bem como definir) foi tomando conta de mim e me fez fechar os olhos. Foi como o abraço de um velho e bom amigo.

Então eu percebi o que estava acontecendo. Eu estava feliz. Parece uma coisa boba, mas foi uma grande descoberta. Por um instante eu senti com muita clareza em minha mente o que é estar feliz. Mas o interessante em si não era estar. Não. O interessante foi perceber que eu estava feliz.

Então comecei a refletir sobre e isso e vi que o ser humano é feliz, e feliz por toda a sua vida, mas não percebe, e por isso não dá valor a sua felicidade.

Talvez pela própria filosofia de vida e cultura da sociedade ocidental a tristeza e o sofrimento são muito mais valorizados do que os momentos felizes, então muita gente diz que não é feliz, até mesmo pela culpa de sentir-se feliz, sem perceber que nem sempre é assim.

Nossa vida é tão atribulada, tão cheia de obrigações e distanciamentos que muitas vezes não temos tempo para sentir o momento em que estamos felizes.

Foi estranho, mas foi um pequeno momento de iluminação pessoal, no qual eu pude saborear e entender.

Não sou budista, mas li que um dos fundamentos do budismo é ter consciência de tudo que se faz. Um princípio básico de meditação. Temos de prestar atenção ao que estamos fazendo a todo o momento.

Se estivermos sentados, devemos sentir nosso corpo apoiado à cadeira.  Se estivermos de pé, devemos sentir nosso corpo equilibrado. Se estivermos comendo, devemos sentir o mastigar e o sabor das comidas. Então, se estamos felizes, vamos prestar atenção nessa felicidade.

Mas nem sempre é fácil, pois existem muitas distrações a nossa volta que não nos deixam espaço para prestarmos atenção em nós mesmos.

Um dos efeitos mais interessantes dessa experiência foi a maneira como essa percepção tão simples potencializou o fato de eu estar feliz.

Mas teve um problema. Da mesma maneira que veio e me surpreendeu, passou.

Comecei a fazer um retrospecto, tentando lembrar de outros momentos onde tive a mesma sensação e foi interessante como consegui lembrar de vários momentos em que estava feliz, mas não tinha consciência disso.

Não sei quando vai acontecer de novo, ou mesmo se vai acontecer de novo, mas foi um momento muito bom e uma experiência de vida que, apesar de simples, mudou alguma coisa em mim. Quisera eu ter entendido isso antes. 

Tem coisas que você não sabe, mas tem coisas que você vai aprender.Tem coisas que você entende, mas tem coisas que você nunca vai entender.


 Silvio Kanda
(esta crónica é escrita em português do Brasil) 

1 comentário

Anónimo disse...

Óptima crónica! Obrigada pelo momento de sentir que se é feliz!

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