Enquanto isso... Do outro Lado do Atlântico


Navegar é preciso.

Quem sou eu para falar de Fernando Pessoa? Ninguém.
Conheço pouquíssimo de sua obra, mas de uma coisa eu sei: sua genialidade o precede.

Mas há uma frase em um de seus poemas que desde pequeno eu ouço e, provavelmente, todo mundo já ouviu: “Navegar é preciso; viver não é preciso”.
Uma grande expressão de sua obra, e talvez o poema mais conhecido, “Navegar é Preciso” tem em sua essência um quê de coragem que inspira os homens a superarem suas limitações e seus medos, convidando-os a heróica atitude de tomarem em suas mãos o curso de suas vidas, sendo isso mais importante que a própria vida.

Pelo menos para mim é isso.

Lindo, profundo, porém, essa frase não é original.

Não. Não foi ele quem primeiro a proferiu. E ele mesmo, em toda a humildade que cabe aos gênios, nos diz isso em seu poema. Mas isso não lhe tira a genialidade, ou é demérito de qualquer forma. Só demonstra sua cultura. E mais importante do que a própria frase é a maneira como ela foi empregada.
Se ele não a tivesse usado em seu poema, hoje ela seria apenas mais uma frase, perdida entre os livros de história. 

“Navegar é Preciso

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: 

"Navegar é preciso; viver não é preciso".
Quero para mim o espírito [d]esta frase, 

transformada a forma para a casar como eu sou:
Viver não é necessário; o que é necessário é criar. 

Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. 

Só quero torná-la grande, 
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo
e a (minha alma) a lenha desse fogo.
Só quero torná-la de toda a humanidade; 

ainda que para isso tenha de a perder como minha. 

Cada vez mais assim penso.
Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue 

o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir 

para a evolução da humanidade.
É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.”

Fernando Pessoa

Quando ele cita “navegadores antigos”, ele quer citar Pompeu, general romano que por volta de 70. a.C. precisava levar alimentos da Cecília para Roma, que passava fome diante uma rebelião dos escravos, liderados por Espártaco.

O tempo era de guerras e prevendo a instabilidade política, o ataque de piratas e até mesmo as condições climáticas desfavoráveis, o comandante da frota encarregada do transporte temia seguir para Roma, numa viagem longa e difícil.

Porém, segundo o historiador Plutarco, nesse momento de indecisão o general Pompeu pronunciou a frase imortalizada por Fernando Pessoa: “Navigare necesse, vivere non necesse”.

E assim, vinda da Roma antiga para nosso tempo, por seu poema a famosa frase renasceu e segue inspirando as novas gerações.

Mas a frase em si é tão instigante e tão genial que se a retirarmos do contexto ela ainda permanece viva e nos trás outras nuances.

Navegar é preciso, viver não é preciso.

Navegar pelos mares, seguindo as cartas náuticas, os mapas e as estrelas é algo que tem de ser preciso, no próprio sentido da palavra precisão. Sem a aplicação precisa do conhecimento técnico a nau vai vagar a deriva pelos oceanos. Daí dizer que navegar é preciso.  

Agora, viver. Viver não é preciso. Quem pode saber com precisão o que o dia-a-dia nos reserva? Quem pode saber com precisão que medida tomar a cada novo desafio que nos é apresentado? Cada um faz seu máximo para viver bem, mas ninguém sabe com precisão aonde vai chegar. Daí dizer que viver não é preciso.

Mas seja qual for o entendimento que você queira dar à frase, o mais importante é reconhecermos o valor do poeta, aquele que consegue traduzir em palavras o que as palavras não conseguem dizer.     

 Silvio Kanda
(esta crónica é escrita em português do Brasil) 

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