Enquanto isso... Do Outro Lado do Atlântico


O consumismo e a inocência.

Outro dia eu estava com a minha filha de 12 anos, ajudando-a a fazer a lição de casa: uma redação. Interessante o tema: O consumismo. Achei legal a proposta colocada para as crianças. Fiquei pensando que esse não seria um tema comum em minha época dos treze anos e para minha surpresa, descobri que ela já tinha uma noção sobre essa “doença moderna”, que tem sintomas variados, afeta mais uns do que outros, mas que todos estamos sujeitos ao contágio.

E não há como escaparmos. A todo o momento somos bombardeados com publicidade cheia de mulheres lindas e carros velozes que despertam nosso desejo e nossa ânsia por participar dessa festa imaginária, criada pelos profissionais de propaganda.

Todos queremos ser V.I.P., então, se uma propaganda diz que esse ou aquele produto o torna um V.I.P. é esse produto que vamos querer comprar.
A roupa X o torna mais elegante, o sapato Y a torna mais “sexy”, então queremos todos ser os mais elegantes e “sexy”, ainda que não valha o preço. O importante é a imagem.

Desejamos coisas que muitas vezes nem precisamos. Temos um carro bom, queremos um mais confortável; temos um mais confortável, queremos um mais veloz; mas ao final das contas não vemos que tudo se trata da mesma coisa: um carro. Mas não é só isso. Um carro, ou outro bem qualquer, muitas vezes vai muito além do que se propõe a ser. Compramos coisas por outros motivos que não sua utilidade. Qualquer carro o leva do ponto “a” ao ponto “b”, mas um super carro, além de levá-lo, demonstra quanto dinheiro você tem e, consequentemente, quão poderoso você é. Qualquer relógio indica as horas, mas um relógio de luxo indica o quanto importante somos.

Para mim, uma bobagem, mas para uma grande parte das pessoas uma necessidade.

Não sou contra ter um bom relógio, ou um bom carro, desde que dentro de minhas possibilidades. Também não sou contra o consumo, importantíssimo para uma economia saudável e fundamental para o desenvolvimento de um país.

Sou contra o mundo de ilusões criado em torno do consumo, que gera nas pessoas necessidades que muitas vezes não existem. Sou contra ter coisas que não preciso ter. Sou contra ter mais roupas ou sapatos do que posso usar. Sou contra comprar, por comprar.

Mas a culpa não é nossa. O ser humano é inocente por natureza e facilmente manipulável.

Como somos bobos na mão dos espertos manipuladores da publicidade.
Basta uma linda mulher sendo supostamente seduzida por esse ou aquele produto para os inocentes e trouxas dos homens acreditem que usando aquele produto conseguirão conquistar mulheres lindas iguais as da propaganda.

O mesmo se aplica às mulheres, que ao verem uma mulher linda e sensual usando esse ou aquele produto acreditam que usando a mesma coisa ficarão tão lindas e sensuais quanto elas. Ledo engano de ambos os sexos.

Mas o pior não é o consumo de coisas desnecessárias em si. O pior é o sofrimento causado quando as pessoas não conseguem suprir sua necessidade de consumo. É triste imaginar que existam pessoas que realmente sofrem por não conseguirem comprar aquela bolsa, ou aquele relógio, que, analisando bem, não trariam nenhum benefício extra, a não ser suprir sua necessidade pessoal de possuir. Pior ainda é consumir coisas desnecessárias e ficar endividado por isso. Outro sofrimento.

Mas essa ânsia pelo consumo, embora muito forte hoje em dia, é uma coisa que sempre existiu, pois existe uma constante que acompanhou o ser humano por toda a sua existência: o desejo, a força propulsora de todo o desenvolvimento humano, motivo tanto de felicidade, quanto de dor, dependendo de quem deseja e do que se é desejado. 


Como dizia o poeta Carlos Drummond de Andrade: “A tarde talvez fosse azul, não houvesse tantos desejos.”

Silvio Kanda
(esta crónica é escrita em português do Brasil) 

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