Crónicas da Brilha


11 anos depois

Os mesmos rostos que se viam nas fotografias, talvez com algumas rugas a mais e outro tanto de sabedoria e experiência de vida. Éramos crianças, todos, inocentes e com aquela luz no olhar que irradiava de fortes convicções, de potencialidades.

Depois alguns constituíram família, seguiram uma profissão, compraram casa, carro e fizeram o que fazem todos os adultos. Rever-vos fez-me sentir que pelo caminho perdi a pessoa que era aos 20 anos.

O essencial da minha aparência não mudou: talvez uns quantos cabelos brancos, uns quilinhos a mais, uma ou outra ruga, mas perdi os sorrisos tristes das fotografias, ganhei outra luz.

Os anos acumulam-se como tijolos para quem não sabe viver entre paragens e é tão estranho rever os rostos de quem ainda ontem estava ao alcance da mão mas soterrado entre caixas de centenas de memórias desarrumadas ao acaso.

Onde estamos todos os que foram? Os que pousaram para aquela fotografia que fixou no tempo os nossos sonhos, as nossas aspirações, o que nos definia num tempo que já poucas vezes vamos lembrando?

Entretanto a vida aconteceu. Deixámos de ser aquele sorriso fixado no instante porque se sucedam tantos que nos foram tornando outros.

Adultos, integrados na sociedade, responsáveis, somos o futuro que quisemos para nós.

Só eu adio essa idade de já não ser criança. Já na faculdade tinha algumas dificuldades em me integrar na correta fase da vida como se esperava de mim. Hoje é o mesmo. Sempre atrás ou adiante do momento certo.

Mas rever-vos fez-me tornar à imagem dos corredores à saída do exame de Obrigações, o de cujus misturado com o fumo do cachimbo da professora que do lado de lá nos falava em símbolos do que haveria de ser agora.

Tudo se mistura e confunde, o antes e o depois, o então e o agora, como se nunca pudéssemos adivinhar o que havia de ser e o que foi fosse um retalho de uma outra biografia colada ao acaso na nossa própria história.

Como fomos, como somos, sem princípio ou fim um suceder de instantes que nos definem a cada passo, as escolhas quotidianas que são mais ou menos fugazes.

Onze anos depois tomamos consciência breve de que os anos são como lembranças que se colam num álbum de fotografias, fragmentos de vida que por vezes podemos até mudar de lugar em retrospetiva, se a memória nos falha.

Fica a sensação presente de me sentir outra vez com 18 anos. Foi ontem. Ainda se lembram?

Ana Brilha

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