Enquanto isso... do outro lado do Atlântico




A trilha sonora de nossas vidas

Outro dia estava com minha filha de 12 anos e ela me mostrou uma música que tinha em seu telefone e perguntou se eu gostava. Ouvi e brinquei dizendo que aquela música era horrível, mas também lhe disse que era apenas uma questão de gosto e que ela tinha todo o direito de gostar e de ouvir qualquer música, desde que não tivesse um conteúdo inadequado. 

Nessa hora, me veio à cabeça uma pergunta: por que as novas gerações nem sempre gostam do que gostamos e vice-versa? Fiquei com essa questão revirando em meus pensamentos e percebi como essa pergunta é uma constante, independentemente de época. 

Quando éramos jovens também gostávamos de músicas que não eram apreciadas por nossos pais, que por sua vez, gostavam de músicas que não eram apreciadas pelos pais deles. Mas, por que será? Por que gostamos de determinada música, cantor, ou banda, que para nossos pais e nossos filhos, na maioria das vezes, não significam nada? Simples: por que para nós havia um significado maior, que transcendia à própria música. 

As músicas e canções que escutávamos, e hoje ouvimos com saudosismo, foram, na verdade, a trilha sonora de nossas vidas. Quem não se lembra das primeiras músicas das quais gostou, ainda na infância, quando começávamos a aprender o que é ser gente, e depois, na adolescência, quando acreditávamos que já éramos gente, sem saber que ainda faltava muito? Basta você pensar para lembrar de várias. Nomes, letras, cantores que ficaram em nós como marcas invisíveis e que hoje nos trazem aquela lembrança gostosa que não sabemos definir. 

Quem não se lembra daquela música que escutava, ainda pequeno, com seus pais na cozinha de casa, enquanto sua mãe fazia o almoço, ou preparava o lanche para a escola?  E depois com nosso grupo de amigos, na escola, na lanchonete, na paquera, compartilhando momentos deliciosos de descobertas e aprendizado. 

Foi ouvindo essas músicas que nós começamos a tomar conhecimento do que era a vida. Músicas que eram a trilha sonora das nossas primeiras paixões, eternas, e nossas primeiras desilusões, tão sofridas. Músicas que escutávamos para demonstrar nossa rebeldia, ou aliviar nossa angústia adolescente, que naquele momento tão difícil, de dúvidas e incertezas, traziam letras que diziam exatamente aquilo que queríamos ouvir, antes de aprendermos que a realidade nem sempre pode ser igual à poesia. Músicas de nossas primeiras festas, nosso primeiro baile, nosso primeiro beijo, nossos primeiros vôos que nos trouxeram até aqui. Ou até mesmo músicas que sequer compreendíamos, mas embalavam nossa alma e faziam balançar nossas cabeças, seguindo seu ritmo inebriante. 

Acho que é isso. Talvez seja por isso que a música que eu tanto gosto não tenha sentido para minha filha, da mesma maneira que a música que ela adora não tenha significado para mim. Nós gostamos de músicas diferentes, pois elas têm significados diferentes. 

Mas o legal é que há músicas que são universais, atemporais e eternas, e cabe a nós mostrarmos a nossos filhos, sobrinhos, netos, as músicas de que tanto gostamos, para que eles possam ter a oportunidade de partilhar conosco algo que nos traz tantas recordações boas. Pode ser que eles gostem. Quem sabe? Pode ser até que daqui a alguns anos eles as escutem novamente e se lembrem desse momento com alegria, o que vai significar que essas músicas, agora, também fazem parte da trilha sonora de suas vidas.

Silvio Kanda
(esta crónica é escrita em português do Brasil)  

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