"Enquanto isso, do outro lado do Atlântico..."



Eu não acredito em horóscopo.

Eu não acredito em horóscopo. Não é por fundamentalismo, intolerância, ou qualquer tipo de radicalismo. Não. Também não tenho nada contra quem acredita. Apenas não consigo acreditar que o movimento de astros, alguns distantes anos luz entre si e a Terra, possam ser responsáveis por acontecimentos que venham a interferir em nossas vidas. 

Até acredito que a Lua (que com sua força gravitacional movimenta até os oceanos) possa causar alguma alteração física em nosso organismo, composto grande parte por água, mas nada que venha a alterar nossa realidade quotidiana. 

Mas uma coisa não podemos negar: a mente criativa de seus idealizadores tem de ser respeitada. A ideia é muito original e extremamente sofisticada, tanto que permanece viva até hoje. 

Imaginemos nossos primeiros antepassados olhando para o céu noturno. Que coisa mais fascinante e desconhecida. Ainda hoje me fascina a visão do céu estrelado. Agora imagine a surpresa dessas pessoas ao notarem que ligando os pontos no céu podiam ver figuras representativas de animais e seres mitológicos. Como teriam ido parar la? Fico imaginando os teóricos da época elaborando teses e levantando hipóteses sobre o assunto. Quanta criatividade. Do nada deram vida a algo que ainda fascina pessoas e, em alguns casos, rege suas vidas. 

Mas se pararmos para pensar vamos perceber que o horóscopo nada mais é do que um jogo de adivinhação, como a prática do I-Ching, o Jogo de Búzios, ou a leitura de Runas. Pense bem, as previsões astrológicas são baseadas na posição dos astros e planetas, porém, o céu que os primeiros observadores contemplavam sequer era o céu de Galileu. 

O universo não é estático e continua em expansão. Os corpos celestes estão em constante movimento, sempre em afastamento do centro do universo. Assim, as previsões baseadas em mapas astrais não estariam corretas, pois a posição das estrelas, aparentemente estáticas, nunca é a mesmas. Sem contar que quando olhamos para o céu contemplamos o passado, sendo que podemos estar vendo uma estrela que já nem exista. Porém, há quem diga que é uma ciência. 

Mas toda ciência necessita de uma base sólida, alicerçada por experimentos e resultados. E ai reside o problema. Como fazer experimentos? Como obter resultados? Ainda, são doze signos, portanto, todos os dias, 1/12 da população mundial está fadada a ser influenciada pelas mesmas forças invisíveis, seja para o bem ou para o mal e, dessa forma, tendo em vista o universo de pessoas que poderiam ser afetadas, caso a previsão venha a se confirmar, nada mais seria que um mero acaso, mais ligado às leis das probabilidades do que ao próprio horóscopo. 

Resumindo, para mim, há mais argumentos contra do que a favor e por isso não acredito em horóscopo. Bem, mas cá entre nós, ainda que eu não acredite em horóscopo, de vez em quando, eu adoro chegar ao final do dia e dar uma olhadinha nas minhas previsões. Não que eu acredite, mas é muito divertida a surpresa quando dá certo. E, a propósito, eu sou de Touro.

Silvio Kanda

(esta crónica é escrita em português do Brasil)

1 comentário

Armando Frazão disse...

Há uns anos atrás comprei um livro com o título "Astrologia". A primeira metade do livro era uma descrição precisa dos métodos, das técnicas, dos princípios. A segunda metade, para grande surpresa minha, era completamente dedicada a explicar porque é que o que fora dito na primeira antes não funcionava!
Também aqui diria que algures perto do meio está a virtude. Dizer que a estrela X entrar na constelação Y vai provocar uma mudança radical na vida de uma pessoa, diria que é exagero. Mas por outro lado a lua, como o exemplo dado, não move apenas oceanos, marca também o ciclo da fertilidade humana (pelo menos quando a humanidade era mais ligada à Terra, agora nem tanto), e isso todos sabemos que pode influenciar a vida de todos de um modo muito mais denso que as marés.
Mas ainda assim o meu ponto de virtude está bem mais próximo do ponto do Silvio do que do mundo dos mapas astrológicos.

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