Crónicas da Brilha



Quando Portugal joga.
Parece a chegada do Homem à lua e todo o mundo pára defronte de uma televisão com a cervejinha, os cacahuetes e as bandeiras zelosamente colocadas no alpendre ou na janela.
Um marco, definitivamente, na retoma da crise que nos tem assombrado a todos. Esquece-se, dança-se, come-se, bebe-se e tudo cai na penumbra de uma felicidade ociosa de um ópio moderno e legal. É o sucedâneo das emoções que se viviam nas antigas batalhas em que se lutava pela sobrevivência e pelo território, à falta de outras que não deixem o cérebro e a alma num sono narcoléptico de indiferentes.
Houve, pelo menos, uma pessoa que não se deixou influenciar por esta histeria colectiva. Foi o espectador solitário, que, naquele dia de jogo, preferiu ir ao teatro.
Entristece-me ouvir a nação parada mas aos gritos, vibrando com um espetáculo no qual não participa nem nunca vai participar, na cultura da evasão, um jogo de milhões que, a par da discussão política de taberna, é uma das formas de alienação e de descompromisso com o que está lá fora e com o que está, ou devia estar, dentro de nós.
Falo das pessoas que deixaram de criar, de ter espírito crítico, que se aniquilam ao deixarem imprimir, conduzir, pelo que fazem os outros nas suas vidas públicas, que gerem as modas, as roupas que vestem, os temas que discutem e, por fim, os sonhos que sonham.
Não falo de gostos, falo da nossa tristeza, da nossa nostalgia desse passado que nunca mais volta e que é o subterfúgio do nosso eu despojado. Cada um tem a liberdade de gostar do que quer, quer de música clássica quer de música pimba, ou de outra qualquer, mas não podemos deixar de ver a diferença entre as duas e das mentalidades que as escolhem.
O tema de partida não é o futebol, é qualquer coisa, porque o cerne da questão é, na verdade, o facilitismo, o materialismo, o consumismo desenfreado de ver fazer e não de fazer.
Respeito quem gosta de música clássica, pimba ou outro dos milhentos estilos que existem e quase nascem todos os dias, há espaço para todos, mas vai custar-me sempre a massificação. Vai continuar a custar-me esse espectador solitário, incompreendido, que se calhar há de perder a sua individualidade, como alguns outros já o fizeram, porque parece mal não saber o que se passa no mundo e porque o que se passa no mundo, o mainstream, o que vende, é a uniformização dos Homens. E mais me custa por conhecer de perto esse espectador solitário, que teve o azar de não gostar de futebol, no dia em que o mundo parou em frente de uma televisão, quando lá fora existiam os bosques, o vento e os pirilampos.
Ana Brilha

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