Crónicas da Brilha




A crise não é para todos
Digo-vos, é uma chatice termos o bolso do casaco descosido. Conheci pessoas que foram mandadas para casa, impedidas de trabalhar, por terem um simples rasgão na camisa, mas o bolso descosido é muito pior!
Não imaginam o incómodo, o horror, das moedas a tilintarem ao longo do forro, as chaves do carro que não se encontram, tudo misturado com pequenos sulcos de areia e cotão, enfim, um sem número de contrariedades que nos debilitam a capacidade e imagem profissionais, a autoestima, e quebram a organização que deve imperar num escritório.
Andei assim uma semana e não podia mais! O cúmulo foi a última reunião de sexta-feira em que fechei um processo. O cliente, satisfeito como esperado, pagou a conta final em cheque traçado, de aperto de mão fácil e sorridente, e lá foi de problema resolvido retornar à sua vida de sempre.
- É para o arranjo! – disse como que a chamar a atenção para o desmazelo. O horror! A vergonha!
Isto foi pela manhã, se bem me recordo. Meti o cheque na carteira, a carteira no bolso, decidido a ir ao banco. Pelo caminho encontrei um colega da faculdade, o César, que insistiu (minto, exigiu) que almoçasse com ele e lhe contasse novas de tudo quanto andava a fazer.
À tarde, um prazo atrasado que tinha de cumprir gastando os dedos contra o teclado do mal digerido almoço. Vida exigente, cansativa e apressada de quem escolheu a profissão que mais fulmina os desgraçados de ataques cardíacos e apoplexias.
Sobrevivendo a mais uma sexta-feira, cheio das promessas de 48 horas de descanso e liberdade, cheguei a casa, descalcei os sapatos e esqueci-me a fazer zapping da vida em frente à televisão enquanto anestesiava o cérebro perro do excessivo labor que dava às suas engrenagens misteriosas.
Fui-me deitar meio ébrio de sono e cansaço, não sem antes pedir à minha mulher que me cosesse o famigerado bolso do casaco. Só no dia seguinte me lembrei que deveria ter passado no banco para depositar o cheque. Não fazia mal, a minha segunda-feira iria ser de certo um dia mais calmo e podia fazer isso de tarde.
Cheguei ao escritório na segunda, cumpri a religiosa reunião de coordenação de trabalhos e preparei-me para ir ao banco já com o bolso do casaco arranjado (que a desfeita que o outro me fizera ainda estava bem gravada na minha autoestima e a nossa imagem deve sempre transmitir a forma modesta mas asseada e elegante de estar na vida).
Meti a carteira ao bolso e fui, desta feita sem interrupções, até ao balcão. Esperei pacientemente na fila, que hoje em dia nada se consegue sem a tolerante espera das burocracias, e chegada a minha vez , qual não foi o meu espanto ao verificar que o cheque tinha desaparecido. Tremi de humilhação e voltei ao escritório, revirei folhas, memorandos, envelopes, papéis de rascunho e até os livros que consultara na semana anterior e nada: o cheque tinha-se evaporado.
Talvez o tivesse colocado em qualquer outro sítio, mas não me lembrava de nada além do almoço com o César. Esperei alguns dias antes de dar o dinheiro por perdido mas, carambas, prezo-me de ser uma pessoa organizada e cuidadosa e toda aquela situação punha em causa a minha autoimagem. Não sabia muito bem o que fazer e continuei nesses dias a procurar o cheque apesar de quase poder jurar que o tinha perdido no meu almoço com o César. Suspeito…
Só duas semanas depois, quando me preparava para sair, palpando os bolsos para confirmar que guardara a carteira, senti um volume estranho na aba do casaco. Virei-o, testei a textura, o som, revirei o bolso remendado e vi que se tratava de um volume de papel. O cheque ficara dentro do forro do casaco…
Às vezes, mais vale um bolso roto que um cheque inacessível, pensei, ciente de que andava há semanas com um casaco remendado que valia mais de 300 contos… a menos que chovesse.
Ana Brilha

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