E eis que é Natal - Crónicas da Brilha



Nas ruas nocturnas há luzes a tremeluzir. Não neva, mas o frio faz-nos recolher ao aconchego das lareiras. Os pés pisam folhas secas no caminho, que por vezes também tombam nos casacos de golas hirtas ou nas luvas forradas de lã.

De chapéu de chuva em riste, sente-se no ar o cheiro da madeira breve que nos lembra florestas e musgo. Há menos gente nas ruas. Foram, como as aves, para outras paragens.

A contrastar com esta calma placidez das cidades, as ruas iluminadas recordam-nos o regresso da luz e o calor do lume aceso faz-nos apetecer o verão que, parece, já se foi há tempo demais.

Tornamos a casa, seja ela na cidade ou no cimo de uma vereda, muitas vezes a custo de quilómetros de estrada ou de voo sobre outras memórias hipotéticas por construir. Na bagagem poupa-se na roupa, apesar do frio, levam-se os presentes e o coração cheio de amor e saudade dessa terra que nos viu nascer, dos familiares de rostos suspensos no tempo ou dos amigos de outrora que afinal cresceram, tal como nós, dessa outra vida que somos também mas nem sempre lembramos.

Nessa noite, o calor da família, dos abraços, são certos. E na mesa as iguarias de sempre que nos lembram essa infância difusa, de pais, avós, irmãos, tios e primos em histórias que nunca se acabam.

Longe dos centros comerciais a abarrotar de consumo, são os gestos simples que nos tocam, esse retorno figurado ou real à casa paterna, em que somos novamente crianças.

Perto do coração fremem os galhos quentes que se iluminam na noite a crepitar de risos, esqueceu-se a bagagem de quem terá de tornar a outro lugar qualquer.

Esta noite, a estrela no topo da árvore guia os nossos olhos em direcção ao presente, ao abraço da família, à saudade que se mitiga, sorrindo à visão da avó que dorme, com um gato enroscado aos pés.


Ana Brilha

Sem comentários

Com tecnologia do Blogger.