A chuva, um sofá e... uma manta - Crónicas da Brilha


Com pés de lã, veio o Inverno soprar-nos ao ouvido saudades das férias. Nas ruas vão escorrendo devagar os últimos fiapos de sol ao passo que vão ficando desertas, pontuadas apenas pelas horas de ponta e pelo interminável ciclo do labor diário.

Como um bicho que se enrosca, tornamo-nos friorentos, procuramos o aconchego de uma toca, de um cobertor, de uma lareira que espalhe no ar o odor da lenha a lembrar ainda a terra húmida e o sabor a musgo e a orvalho.
Trocaram-se os longos passeios à beira mar pelas roupas quentes e os agasalhos. Trocaram-se as tardes na esplanada do café pelo lume a crepitar de cores quentes e serenas.

Apetece as mantas de retalhos das nossas avós, as meias grossas e os pijamas felpudos em frente da lareira. Trocar histórias, ler, escrever ou deixar tombar o comando da televisão, qualquer gesto que combata em nós a hibernação natural do recolher ao nosso interior. Qualquer motivo é válido para continuar a viagem que não se apouca por não ser feita de muitos quilómetros.
Há quem se esqueça a redigir relatórios, quem analise documentos, quem prepare aulas, ou reuniões, ou projectos ou processos. Nesse cantinho de nós, até mesmo o trabalho nos traz o conforto do secreto.

O anunciar do Inverno não é senão o nosso regresso ao silêncio primordial das coisas e de nós mesmos, uma nova oportunidade de reflexão e introspecção. Quanto a mim, prefiro mantas de xadrez, o rádio ligado e a lareira acesa.
Há poesia no Inverno. Há uma sensação de suspensão intimista que nos faz redescobrir-nos longe do outro, nos pequenos gestos, nas goteiras dos telhados, na ausência dos risos das crianças nas ruas.

Nas frinchas das janelas às vezes ouve-se o vento. Quer falar-nos desse tempo e do que podemos fazer com ele. E se tivermos a manta correcta e soubermos escutar com atenção veremos que o limite do que podemos fazer está (apenas) no alcance da nossa imaginação.

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