O autor que faltava...


Ainda falando dos "Contos de Agora e de Outrora", estávamos em falta com a pergunta que lançámos ao último autor: Rosa Laje. Mas finalmente vamos publicá-la!

Porquê participar num projecto como este?
Engraçado haver a ideia de que até a literatura ou o conto exigem um momento prévio ou propiciatório que seria o projecto literário para que apareça o livro em edição. Parece-me antes que toda a literatura, qualquer uma, se faz mais das quedas a sonhar a leveza do que do levantar do avião (ufa!)! Na aparência a literatura não tem projecto. Recordo que projecto é como o avião que pelas asas voa até chegar ao seu destino. Então, concretizando, pode o projecto conduzir quem não é escritor ao estatuto pleno de escritor, só porque é projecto? Pareço estar num paradoxo. Repito: o que não é literatura pode parir a literatura e o escritor de uma só vez? Não será preferível dizer que o projecto só aparece quando acabam a literatura e o escritor?

Os Contos de Agora e de Outrora, assim, nada mais seria do que o cancioneiro feito por quem tudo muito bem leu e, depois, letra a letra, tudo cantou e de todos, tornando leve as letras e as palavras carregadas de cada um. Quando a Ana Brilha acertou as passagens, nada o fazendo esperar, ficámos todos a olharmo-nos de cima abaixo, lá no alto, estranhos mas deslumbrados, como não conseguindo explicar.

Ora esta literatura não cabe em nenhum evento, nem sequer num lançamento.
 
Rosa Laje (Resumo da nota biográfica, escrita com paixão)

Não tive formação artística formal, nem descobriram o talento precoce.

Em criança, lembro algo que nunca me amedrontou: o uso da plasticina, da aguarela e do guache. No jardim-de-infância fazia e as peças eram exibidas. Era como se miúdos, isentos de qualquer cidadania, ali estivéssemos a sós com o ser e o dom. (...)

Fazia-se e fazíamos para de imediato ser falado, discutido e exibido. e vinham de fora ver. Havia a vernissage, só para os convidados. Vinha a família. A única conduta aceite era a da vida boa, de fazer sem qualquer correcção ou mando. Infelizmente, hoje, é como se tivesse sido há mil anos. (...)

No liceu, época difícil, senti-me homenzinho. A cidadania aparecia finalmente. Estudava matérias importantes para a vida responsável. O português, a matemática e as ciências. Em troca deveria matar a arte, ou melhor, deixar que ela morresse bem diante de mim. (...)

Mais tarde, por sopro do meu pai, ingressaria em engenharia de que viria a desistir após três anos de andar carregado pelos corredores. Ressalvo, o pai foi a primeira pessoa que me acompanhou a algum museu. ele sabia de artistas que tinham ido à escola. Os maiores nunca lá teriam chegado. Porém, para ele, qualquer escola que habilitasse a carreira de prestígio anunciado e de remunerada segura nunca estaria uma escola de artes.

O que me levou a desistir do técnico e a escolher uma pro fissão no campo das ciências sociais foi um indelével mas firme e sentido inebriamento pela pintura da política como se alguns braços agarrados às vozes pudessem, em algum canto, fazer, da rua, as cores, por onde os tantos abraços se estenderiam por sobre os cinzentos acabrunhantes confinando com os entalhes os vincos do contraste. (...)

Dez anos depois, já assistente social, a poesia e o passeio ficaram comigo. Levaram-me pela primeira vez, de mão dada, aos jardins. Nunca voltaria a andar tanto a pé. Escrevia como se corresse nas sílabas métricas. (...)

O meu último atelier, o que mantenho, são esses ateliers ou lugares de encontro. Para que pratique diante deles ou na memória deles, trago aguarela, pastel de óleo, grafite e esfuminho. tudo na mochila.

Hoje, mestre em serviço social, se for para o doutoramento o que me interessaria seria olhar, seria estar com aqueles que tiveram a mesma trajectória: pessoas a meio das suas carreiras profissionais que gostariam de se dedicar em princípio e, na maioria do tempo, à vocação que foram escutando, mas que hesitam. (...)

Voltamos a relembrar que está a decorrer um concurso passatempo em:
http://www.1001blogsforum.com/t24197-passatempo-marco-1001blogs-parceria-com-site-e-blog

Passem por lá e habilitem-se a ganhar um livro e não só!
 
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